Drummond: poeta do eu, poeta do mundo – por Luan Siqueira

Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
[Carlos Drummond de Andrade]

 

José Miguel Wisnik, em sua faceta de crítico literário, afirma em seu livro, Maquinação do mundo: Drummond e a mineração (2018), ser Drummond “um escritor tão apegado ao provinciano lugar de origem e ao mesmo tempo tão marcado por um sentimento cosmopolita do vasto mundo” (WISNIK, 2018, p. 18), além de haver em sua obra poética uma “recorrência insistente da palavra ‘mundo’” (idem, 2018, p. 19). Tal consideração aponta para uma das tensões fundamentais, senão a mais elementar de todas, que se apresenta na poesia de CDA: aquela que compreende a relação entre o individual e o coletivo, bem como o local e o universal. Levando esta temática para o campo da memória, há que se avaliar de que maneira o poeta de Itabira explora em sua poesia os temas que dizem respeito à memória particular e à memória coletiva.

O primeiro problema a ser colocado é: como a poesia, sendo sempre (ou quase sempre) produto de uma subjetividade (o que pressupõe um eu), pode ser também, em certa medida, meio de expressão coletiva? Parece-nos que, quando publicada, qualquer obra é sempre dirigida a um interlocutor, mesmo que este não esteja devidamente identificado. Sendo assim, quando lançada para o mundo, a obra passa a fazer parte de uma coletividade, encontrando eco em um “nós” que poderá vir a ler tal material. Portanto, encarada enquanto produção coletiva, a poesia participa de um construto social que admite a alteridade entre o poeta e a sociedade na qual ele se insere enquanto cidadão.

Tendo em vista o exposto, julgo ser interessante pensarmos na obra poética de Drummond como um conjunto de depoimentos de uma memória estritamente particular, podendo se colocar também, em certos momentos, enquanto objeto de uma memória coletiva. Ainda, para refletirmos acerca da presente questão, será necessário levar em conta todo o campo semântico de vocábulos que possam se relacionar com a palavra “memória”, como a “lembrança”, a “recordação” e a “reminiscência”, por exemplo, palavras próximas entre si mas que nos levam a caminhos diversos de significação. Convém também juntarmos a esse filão o conceito de história, posto que tanto a oficial, com ‘h’ maiúsculo, quanto a não oficial, são atravessadas pela memória de um povo de determinado lugar.

Tomando como referência parte do estudo de Paul Ricoeur, no qual o filósofo propõe uma fenomenologia da memória ao analisar os processos mnemônicos, temos uma sutil relação entre a memória e a lembrança, em que, segundo o autor, “a memória está no singular, como capacidade e como efetuação, as lembranças estão no plural: temos umas lembranças” (RICOEUR, 2007, p. 41). Logo, a partir de tal afirmação, é possível inferir que a memória, enquanto sistema, constitui-se de lembranças variadas.

Desse modo, é interessante perceber que a memória inscreve-se em um passado do qual a lembrança, como agente, busca recuperar ou reviver algum fato que ficou esquecido ou apagado, buscando autenticar a existência de um acontecimento pretérito. É aí que se coloca certa vertente da poesia drummondiana, que tem na rememoração dos fatos a sua força motriz. Em Boitempo I, por exemplo, este aspecto se torna mais latente, tomando conta de toda obra, ao contrário do que ocorre em Alguma Poesia, em que apesar de termos poemas nos quais o expediente da recordação já aparece, como em “Infância” e “Família”, há outros tantos poemas de temáticas diversas.

Retomando a problemática das tensões entre o particular e o coletivo, o local e o universal, é preciso investigar se Drummond como poeta consegue mobilizar o seu leitor, considerando também as palavras de Antonio Candido, que nos lança a seguinte questão: “(…) se o alvo da poesia é o próprio eu, pode esta impura matéria privada tornar-se, na sua contingência, objeto de interesse ou contemplação, válido para outros?” (CANDIDO, 2011, p. 71).

Tentando responder esta questão crucial levantada por Candido, vejamos o poema a seguir, presente em Alguma Poesia:

 

Também já fui brasileiro

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isto, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
Meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
Satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
Não sou irônico mais não,
Não tenho ritmo mais não.

(ANDRADE, 2015, p.12)

 

No poema acima é possível identificar um processo de generalização do indivíduo, ou seja, o poeta busca associar-se à imagem de brasileiro, sendo assim um homem comum, “moreno como os outros”, tendo também ponteado violado e guiado ford, em uma clara referência aos homens que através do trabalho também construíram este país. Contudo, já na primeira estrofe é possível perceber uma certa tensão entre as instâncias do individual e do coletivo, uma vez que o verso “moreno como vocês” aparece em confronto com a primeira pessoa do discurso, “Eu”.

Nas estrofes que se seguem, o processo de individuação do sujeito prossegue com maior ênfase, e o uso do pronome possessivo ‘meu’ se torna frequente em expressões como “meu ritmo”, “meus amigos”, “minha poesia”. Podemos dizer que neste poema aparecem dados correspondentes à realidade nacional, presentes na primeira estrofe, autenticando assim uma espécie de memória coletiva que logo entra em conflito com as experiências individuais do eu lírico. Daí a rápida gradação entre as imagens de brasileiro e de poeta, que no poema se dá entre a primeira e a segunda estrofe. O discurso poético, nesse caso, busca inserir-se no meio social do qual o poeta faz parte, ao mesmo tempo em que ele rompe com esse meio ao declarar a sua individualidade, confrontando as margens do pessoal e do coletivo. É por isso que ao final de cada estrofe há uma visão torta das coisas em que o poeta acreditava ou possuía.

Considerando tais aspectos, evoco uma consideração de Paul Ricoeur, na qual ele analisa a ação da memória e as dimensões assumidas por ela nos âmbitos do público e do privado:

Em sua fase declarativa, a memória entra na região da linguagem: a lembrança dita, pronunciada, já é uma espécie de discurso que o sujeito trava consigo mesmo. Ora, o pronunciado desse discurso costuma ocorrer na língua comum, a língua materna, da qual é preciso dizer que é a língua dos outros. Ora, essa elevação da lembrança à palavra não se dá sem dificuldades. (…) Assim posta na via da oralidade, a rememoração também é posta na via da narrativa, cuja estrutura pública é patente. É nessa de desenvolvimento que encontraremos, já no começo da segunda parte, os procedimentos do testemunho proferido diante de um terceiro, recebido por ele e eventualmente registrado num arquivo. (RICOEUR, 2007, p. 138-139)

Assim, entendemos que ao inserir as lembranças e as experiências individuais em sua obra, o poeta atinge o ponto da narrativa oral, ou seja, compartilha com uma massa de pessoas o que a princípio seria algo restrito à sua vida pessoal. Logo, as memórias do poeta passam a fazer parte também de uma memória coletiva, haja vista a força que o discurso ficcional atinge em uma sociedade. Contudo, tais memórias não são acessadas facilmente, revelando-se um processo de busca pelas reminiscências que nem sempre são apresentadas de forma clara, como Drummond formula no poema a seguir, presente em Boitempo I:

 

(In) Memória

De cacos, de buracos
De hiatos e de vácuos
De elipses, psius
Faz-se, desfaz-se, faz-se
Uma incorpórea face,
Resumo de existido.

(ANDRADE, 2016, p. 503, trecho)

 

Em Boitempo I é latente o processo em que há uma tentativa de associação entre a memória pessoal e a memória coletiva. Em poemas como “15 de Novembro”, presente no bloco intitulado ‘Caminhar de costas’, vemos uma clara referência acerca de um fato histórico (a proclamação da República), que, fazendo parte do imaginário coletivo das pessoas, está quase se perdendo pela falta de testemunhas. O poeta então, assumindo o compromisso com a memória coletiva local, elabora os seguintes versos:

 

15 de Novembro

A proclamação da República chegou às 10 horas da noite
em telegrama lacônico.
Liberais e conservadores não queriam acreditar.
Artur Itabirano saiu para a rua soltando foguete.
Dr. Serapião e poucos mais o acompanhavam
de lenço incendiário no pescoço.
Conservadores e liberais recolheram-se ao seu infortúnio.
O Pico do Cauê quedou indiferente (era todo de ferro, supunha-se eterno).
Não resta mais testemunha daquela noite
para contar o efeito dos lenços vermelhos
ao suposto luar das montanhas de Minas.
Não restam sequer as montanhas.

(ANDRADE, 2015, p. 506)

 

Analisando os versos, é possível identificarmos o esforço do poeta em recuperar os fatos históricos de seu local de origem, ao inserir nomes de populares, individualizando também o coletivo, já que “liberais e conservadores” logo assumem uma face, expressa por Artur Itabirano e Dr. Serapião. Já a falta de montanhas, característica incontornável da paisagem mineira, busca assinalar a descaracterização de um tempo que, a princípio, já está quase acabando, restando apenas as reminiscências individuais em processo de apagamento. Para frear esse processo, urge a poesia, enquanto obelisco mnemônico, que tenta assegurar a permanência dos fatos na memória coletiva.

Importa também para esta poesia a memória de cunho mais intimista, em detrimento de uma memória coletiva por si só. Nesse sentido o poema “Descoberta”, de Boitempo I, presente na parte intitulada ‘Um’, é um belo exemplo de como CDA, em um processo autoficcional, particulariza-se em face dos acontecimentos externos à sua vida:

 

Descoberta

Cadete grava para a Casa Édison, Rio de Janeiro.
O reizinho de Portugal retira-se para a Inglaterra.
O cometa já não viaja para Oliveira Vale & Cia.,
agora ocupa o céu inteiro na noite de 19 de março.
O Ministro da Guerra vira Presidente,
vasos de guerra bombardeiam a Capital,
marinheiros degolam almirantes,
o mundo vai acabar
mas eu sigo a pé para a aula de Mestre Zeca e descubro a letra A, rainha das letras.

(ANDRADE, 2015, p.529)

 

Fica evidente que, mesmo em meio a diversos acontecimentos relevantes, o poeta particulariza o poema ao inserir a sua experiência com as primeiras letras, dando maior ênfase a sua grande descoberta. Ao recordar o fato, o poeta (re)vive, através da escrita, o acontecimento, ao marcar o verbo ‘seguir’ no tempo presente. É como nos diz Walter Benjamin: “O cronista, que narra os acontecimentos em cadeia, sem distinguir entre grandes e pequenos, faz jus à verdade, na medida em que nada do que uma vez aconteceu pode ser dado como perdido para a história”(BENJAMIN, 2010, p. 10). Para Drummond, portanto, tudo é histórico, tanto os acontecimentos individuais quanto os coletivos. É ele o cronista que narra o passado, às vezes como presente, e vai nos projetando um caminho futuro, em uma poesia que “(…) sai para ver/ o tempo futuro/ que secou as esponjeiras/ e ergueu pirâmides de ferro em pó” (DRUMMOND, 2015, p. 552)[1]

Já em “Coração numeroso”, poema de Alguma Poesia, o poeta, residindo na cidade do Rio de Janeiro, é surpreendido pelo vento de Minas. É esta brisa que traz as reminiscências da cidade natal do poeta, o deixando em um entre-lugar que une a sua personalidade à(s) cidade(s):

Coração numeroso

Foi no Rio.
Eu passeava na Avenida quase meia-noite.
Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.
Havia  a promessa do mar
e bondes tilintavam,
abafando o calor
que soprava no vento
e o vento vinha de Minas.

(…)

O mar batia em meu peito, já não batia no cais.
A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor.

(ANDRADE, 2015, p. 24, trecho)

 

O que podemos inferir acerca da poesia drummondiana é que, mesmo quando o poeta trata de temáticas que dizem respeito única e exclusivamente à sua vivência pessoal, o que fica para nós, leitores, é a maneira como esta experiência comunica em certa medida conosco, que nos sentimos atingidos pelas questões colocadas em seus poemas. As margens entre a memória coletiva e a memória pessoal são tensionadas, resultando em um amálgama que nos apresenta diversas chaves de leitura, tanto na autobiografia quanto na heterobriografia local, como propôs Antonio Candido (1989). O mundo em Drummond figura enquanto instância compartilhável, local criado na e através da linguagem. O mundo habitável em Drummond, experiência ao mesmo tempo pessoal e coletiva, como é característico da grande poesia, é, propriamente, uma rua de Itabira em que a(s) memória(s) são entrelaçadas e revividas.

[1] Poema “Documentário”. in: Boitempo II (Menino antigo)

 

Referências bibliográficas

ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião: 23 livros de poesia. 1a ed. São Paulo:
Companhia das Letras, 2015.
CANDIDO, Antonio. Inquietudes na poesia de Drummond. In: ______ Vários escritos. 5a
ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011, p. 67 – 97.
BENJAMIN, Walter. O anjo da história. trad. João Barrento. Porto: Assírio & Alvim, 2010.
CANDIDO, Antonio. Poesia e ficção na autobiografia. In: ______ A educação pela noite e
outros ensaios. São Paulo: Editora Ática, 1989, p. 51 – 69.
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução: Alain François (et al.).
Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007.
SANTIAGO, Silviano. Meditação sobre o ofício de criar. In :______ Revista Aletria. Belo
Horizonte. No 18. Jul-Dez, 2008, p. 173-178.
WISNIK, José Miguel. Maquinação do mundo: Drummond e a mineração. São Paulo:
Companhia das Letras, 2018.

 

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Luan Siqueira é graduado no curso de licenciatura em Letras – Português/ Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense. Atua como professor voluntário em projetos de educação popular. Administra no Instagram o perfil @dizerpoesia, onde lê e compartilha poesia.

 

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Fotografia: Carlos Drummond de Andrade na sala de seu apartamento em 1982, prestes a completar 80 anos, por Rogério Reis / Tyba

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