Guanabara: um mapa descritivo, por Pedro Ávila

o carnaval é uma convalescença
a baía de guanabara é bela
pelos dentes an-
gulosos — arranha-céus
de boca — de banguela

todo mundo samba cego nela
— édipo de bengala
— abadá: traje de gala —
— lá gallus gallus não cantam manhãs
urubus almoçam carcaça-
moça de sacoplástico e tar
ta-
rugas na areia suja

por onde surgem andarilhos fugentos
pulguentos guabirus retirantes
rattus rattus alados
primogénitos a correr o fado
multiplicados por pi
-xels mal roenderizados
Amália Rodrigues pia com a guitarra
num disco roído e arranhado

devido à poeira e aos ciscos
suspendidos pelos sismos
das cismas de fragatas gringas
gritando noutra língua —
turistas atrás de encher a boca aqui

de salgados peixes cérberos ali-
mentados a lenga-lengas —
— tendo de 7 barcas zarpado —
sem aguentar os 40 degraus Celsius
do chão de grãos degra-
dados jogados ao azar — do sol-
o de proto-vidro

praia infectada en-
festada de bichos mutantes
fresta de sol que cresta a pele
fukushima antropixalista
ilha de lábios radioativos
ósculos torpes miopes
se s(us)-
urrando hulk de dor

um fudum só

 

(2019)

Drummond: poeta do eu, poeta do mundo – por Luan Siqueira

Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
[Carlos Drummond de Andrade]

 

José Miguel Wisnik, em sua faceta de crítico literário, afirma em seu livro, Maquinação do mundo: Drummond e a mineração (2018), ser Drummond “um escritor tão apegado ao provinciano lugar de origem e ao mesmo tempo tão marcado por um sentimento cosmopolita do vasto mundo” (WISNIK, 2018, p. 18), além de haver em sua obra poética uma “recorrência insistente da palavra ‘mundo’” (idem, 2018, p. 19). Tal consideração aponta para uma das tensões fundamentais, senão a mais elementar de todas, que se apresenta na poesia de CDA: aquela que compreende a relação entre o individual e o coletivo, bem como o local e o universal. Levando esta temática para o campo da memória, há que se avaliar de que maneira o poeta de Itabira explora em sua poesia os temas que dizem respeito à memória particular e à memória coletiva.

O primeiro problema a ser colocado é: como a poesia, sendo sempre (ou quase sempre) produto de uma subjetividade (o que pressupõe um eu), pode ser também, em certa medida, meio de expressão coletiva? Parece-nos que, quando publicada, qualquer obra é sempre dirigida a um interlocutor, mesmo que este não esteja devidamente identificado. Sendo assim, quando lançada para o mundo, a obra passa a fazer parte de uma coletividade, encontrando eco em um “nós” que poderá vir a ler tal material. Portanto, encarada enquanto produção coletiva, a poesia participa de um construto social que admite a alteridade entre o poeta e a sociedade na qual ele se insere enquanto cidadão.

Tendo em vista o exposto, julgo ser interessante pensarmos na obra poética de Drummond como um conjunto de depoimentos de uma memória estritamente particular, podendo se colocar também, em certos momentos, enquanto objeto de uma memória coletiva. Ainda, para refletirmos acerca da presente questão, será necessário levar em conta todo o campo semântico de vocábulos que possam se relacionar com a palavra “memória”, como a “lembrança”, a “recordação” e a “reminiscência”, por exemplo, palavras próximas entre si mas que nos levam a caminhos diversos de significação. Convém também juntarmos a esse filão o conceito de história, posto que tanto a oficial, com ‘h’ maiúsculo, quanto a não oficial, são atravessadas pela memória de um povo de determinado lugar.

Tomando como referência parte do estudo de Paul Ricoeur, no qual o filósofo propõe uma fenomenologia da memória ao analisar os processos mnemônicos, temos uma sutil relação entre a memória e a lembrança, em que, segundo o autor, “a memória está no singular, como capacidade e como efetuação, as lembranças estão no plural: temos umas lembranças” (RICOEUR, 2007, p. 41). Logo, a partir de tal afirmação, é possível inferir que a memória, enquanto sistema, constitui-se de lembranças variadas.

Desse modo, é interessante perceber que a memória inscreve-se em um passado do qual a lembrança, como agente, busca recuperar ou reviver algum fato que ficou esquecido ou apagado, buscando autenticar a existência de um acontecimento pretérito. É aí que se coloca certa vertente da poesia drummondiana, que tem na rememoração dos fatos a sua força motriz. Em Boitempo I, por exemplo, este aspecto se torna mais latente, tomando conta de toda obra, ao contrário do que ocorre em Alguma Poesia, em que apesar de termos poemas nos quais o expediente da recordação já aparece, como em “Infância” e “Família”, há outros tantos poemas de temáticas diversas.

Retomando a problemática das tensões entre o particular e o coletivo, o local e o universal, é preciso investigar se Drummond como poeta consegue mobilizar o seu leitor, considerando também as palavras de Antonio Candido, que nos lança a seguinte questão: “(…) se o alvo da poesia é o próprio eu, pode esta impura matéria privada tornar-se, na sua contingência, objeto de interesse ou contemplação, válido para outros?” (CANDIDO, 2011, p. 71).

Tentando responder esta questão crucial levantada por Candido, vejamos o poema a seguir, presente em Alguma Poesia:

 

Também já fui brasileiro

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isto, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
Meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
Satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
Não sou irônico mais não,
Não tenho ritmo mais não.

(ANDRADE, 2015, p.12)

 

No poema acima é possível identificar um processo de generalização do indivíduo, ou seja, o poeta busca associar-se à imagem de brasileiro, sendo assim um homem comum, “moreno como os outros”, tendo também ponteado violado e guiado ford, em uma clara referência aos homens que através do trabalho também construíram este país. Contudo, já na primeira estrofe é possível perceber uma certa tensão entre as instâncias do individual e do coletivo, uma vez que o verso “moreno como vocês” aparece em confronto com a primeira pessoa do discurso, “Eu”.

Nas estrofes que se seguem, o processo de individuação do sujeito prossegue com maior ênfase, e o uso do pronome possessivo ‘meu’ se torna frequente em expressões como “meu ritmo”, “meus amigos”, “minha poesia”. Podemos dizer que neste poema aparecem dados correspondentes à realidade nacional, presentes na primeira estrofe, autenticando assim uma espécie de memória coletiva que logo entra em conflito com as experiências individuais do eu lírico. Daí a rápida gradação entre as imagens de brasileiro e de poeta, que no poema se dá entre a primeira e a segunda estrofe. O discurso poético, nesse caso, busca inserir-se no meio social do qual o poeta faz parte, ao mesmo tempo em que ele rompe com esse meio ao declarar a sua individualidade, confrontando as margens do pessoal e do coletivo. É por isso que ao final de cada estrofe há uma visão torta das coisas em que o poeta acreditava ou possuía.

Considerando tais aspectos, evoco uma consideração de Paul Ricoeur, na qual ele analisa a ação da memória e as dimensões assumidas por ela nos âmbitos do público e do privado:

Em sua fase declarativa, a memória entra na região da linguagem: a lembrança dita, pronunciada, já é uma espécie de discurso que o sujeito trava consigo mesmo. Ora, o pronunciado desse discurso costuma ocorrer na língua comum, a língua materna, da qual é preciso dizer que é a língua dos outros. Ora, essa elevação da lembrança à palavra não se dá sem dificuldades. (…) Assim posta na via da oralidade, a rememoração também é posta na via da narrativa, cuja estrutura pública é patente. É nessa de desenvolvimento que encontraremos, já no começo da segunda parte, os procedimentos do testemunho proferido diante de um terceiro, recebido por ele e eventualmente registrado num arquivo. (RICOEUR, 2007, p. 138-139)

Assim, entendemos que ao inserir as lembranças e as experiências individuais em sua obra, o poeta atinge o ponto da narrativa oral, ou seja, compartilha com uma massa de pessoas o que a princípio seria algo restrito à sua vida pessoal. Logo, as memórias do poeta passam a fazer parte também de uma memória coletiva, haja vista a força que o discurso ficcional atinge em uma sociedade. Contudo, tais memórias não são acessadas facilmente, revelando-se um processo de busca pelas reminiscências que nem sempre são apresentadas de forma clara, como Drummond formula no poema a seguir, presente em Boitempo I:

 

(In) Memória

De cacos, de buracos
De hiatos e de vácuos
De elipses, psius
Faz-se, desfaz-se, faz-se
Uma incorpórea face,
Resumo de existido.

(ANDRADE, 2016, p. 503, trecho)

 

Em Boitempo I é latente o processo em que há uma tentativa de associação entre a memória pessoal e a memória coletiva. Em poemas como “15 de Novembro”, presente no bloco intitulado ‘Caminhar de costas’, vemos uma clara referência acerca de um fato histórico (a proclamação da República), que, fazendo parte do imaginário coletivo das pessoas, está quase se perdendo pela falta de testemunhas. O poeta então, assumindo o compromisso com a memória coletiva local, elabora os seguintes versos:

 

15 de Novembro

A proclamação da República chegou às 10 horas da noite
em telegrama lacônico.
Liberais e conservadores não queriam acreditar.
Artur Itabirano saiu para a rua soltando foguete.
Dr. Serapião e poucos mais o acompanhavam
de lenço incendiário no pescoço.
Conservadores e liberais recolheram-se ao seu infortúnio.
O Pico do Cauê quedou indiferente (era todo de ferro, supunha-se eterno).
Não resta mais testemunha daquela noite
para contar o efeito dos lenços vermelhos
ao suposto luar das montanhas de Minas.
Não restam sequer as montanhas.

(ANDRADE, 2015, p. 506)

 

Analisando os versos, é possível identificarmos o esforço do poeta em recuperar os fatos históricos de seu local de origem, ao inserir nomes de populares, individualizando também o coletivo, já que “liberais e conservadores” logo assumem uma face, expressa por Artur Itabirano e Dr. Serapião. Já a falta de montanhas, característica incontornável da paisagem mineira, busca assinalar a descaracterização de um tempo que, a princípio, já está quase acabando, restando apenas as reminiscências individuais em processo de apagamento. Para frear esse processo, urge a poesia, enquanto obelisco mnemônico, que tenta assegurar a permanência dos fatos na memória coletiva.

Importa também para esta poesia a memória de cunho mais intimista, em detrimento de uma memória coletiva por si só. Nesse sentido o poema “Descoberta”, de Boitempo I, presente na parte intitulada ‘Um’, é um belo exemplo de como CDA, em um processo autoficcional, particulariza-se em face dos acontecimentos externos à sua vida:

 

Descoberta

Cadete grava para a Casa Édison, Rio de Janeiro.
O reizinho de Portugal retira-se para a Inglaterra.
O cometa já não viaja para Oliveira Vale & Cia.,
agora ocupa o céu inteiro na noite de 19 de março.
O Ministro da Guerra vira Presidente,
vasos de guerra bombardeiam a Capital,
marinheiros degolam almirantes,
o mundo vai acabar
mas eu sigo a pé para a aula de Mestre Zeca e descubro a letra A, rainha das letras.

(ANDRADE, 2015, p.529)

 

Fica evidente que, mesmo em meio a diversos acontecimentos relevantes, o poeta particulariza o poema ao inserir a sua experiência com as primeiras letras, dando maior ênfase a sua grande descoberta. Ao recordar o fato, o poeta (re)vive, através da escrita, o acontecimento, ao marcar o verbo ‘seguir’ no tempo presente. É como nos diz Walter Benjamin: “O cronista, que narra os acontecimentos em cadeia, sem distinguir entre grandes e pequenos, faz jus à verdade, na medida em que nada do que uma vez aconteceu pode ser dado como perdido para a história”(BENJAMIN, 2010, p. 10). Para Drummond, portanto, tudo é histórico, tanto os acontecimentos individuais quanto os coletivos. É ele o cronista que narra o passado, às vezes como presente, e vai nos projetando um caminho futuro, em uma poesia que “(…) sai para ver/ o tempo futuro/ que secou as esponjeiras/ e ergueu pirâmides de ferro em pó” (DRUMMOND, 2015, p. 552)[1]

Já em “Coração numeroso”, poema de Alguma Poesia, o poeta, residindo na cidade do Rio de Janeiro, é surpreendido pelo vento de Minas. É esta brisa que traz as reminiscências da cidade natal do poeta, o deixando em um entre-lugar que une a sua personalidade à(s) cidade(s):

Coração numeroso

Foi no Rio.
Eu passeava na Avenida quase meia-noite.
Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.
Havia  a promessa do mar
e bondes tilintavam,
abafando o calor
que soprava no vento
e o vento vinha de Minas.

(…)

O mar batia em meu peito, já não batia no cais.
A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor.

(ANDRADE, 2015, p. 24, trecho)

 

O que podemos inferir acerca da poesia drummondiana é que, mesmo quando o poeta trata de temáticas que dizem respeito única e exclusivamente à sua vivência pessoal, o que fica para nós, leitores, é a maneira como esta experiência comunica em certa medida conosco, que nos sentimos atingidos pelas questões colocadas em seus poemas. As margens entre a memória coletiva e a memória pessoal são tensionadas, resultando em um amálgama que nos apresenta diversas chaves de leitura, tanto na autobiografia quanto na heterobriografia local, como propôs Antonio Candido (1989). O mundo em Drummond figura enquanto instância compartilhável, local criado na e através da linguagem. O mundo habitável em Drummond, experiência ao mesmo tempo pessoal e coletiva, como é característico da grande poesia, é, propriamente, uma rua de Itabira em que a(s) memória(s) são entrelaçadas e revividas.

[1] Poema “Documentário”. in: Boitempo II (Menino antigo)

 

Referências bibliográficas

ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião: 23 livros de poesia. 1a ed. São Paulo:
Companhia das Letras, 2015.
CANDIDO, Antonio. Inquietudes na poesia de Drummond. In: ______ Vários escritos. 5a
ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011, p. 67 – 97.
BENJAMIN, Walter. O anjo da história. trad. João Barrento. Porto: Assírio & Alvim, 2010.
CANDIDO, Antonio. Poesia e ficção na autobiografia. In: ______ A educação pela noite e
outros ensaios. São Paulo: Editora Ática, 1989, p. 51 – 69.
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução: Alain François (et al.).
Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007.
SANTIAGO, Silviano. Meditação sobre o ofício de criar. In :______ Revista Aletria. Belo
Horizonte. No 18. Jul-Dez, 2008, p. 173-178.
WISNIK, José Miguel. Maquinação do mundo: Drummond e a mineração. São Paulo:
Companhia das Letras, 2018.

 

***

 

Luan Siqueira é graduado no curso de licenciatura em Letras – Português/ Literaturas, pela Universidade Federal Fluminense. Atua como professor voluntário em projetos de educação popular. Administra no Instagram o perfil @dizerpoesia, onde lê e compartilha poesia.

 

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Fotografia: Carlos Drummond de Andrade na sala de seu apartamento em 1982, prestes a completar 80 anos, por Rogério Reis / Tyba

Caber em aviões: as redondezas do Olho Vegetal – Três poemas de Inês Oliveira

Tinha um cantor-malabarista que olhava às avessas pelo cruzamento, em uma outra esquina de quilômetros atrás. Eu olhava, e era um gesto pegajoso no calor. Então eu pensei naquele poema do Manuel Bandeira em que ele diz: “Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir”.

Daí fiquei comovida com a imagem dos aviões, e o chamado ruidoso das lições de partir. Por isso falo do cantor do sinal, uma das figuras que encontrei antes de voltar.

Porque esses movimentos circulares me são familiares, e hoje mesmo eu estava falando que Sérgio Sampaio foi uma das melhores coisas que o Espírito Santo deu ao Brasil. Falava também daquela música do Arthur Verocai  onde diz “pra quem mora lá o céu é lá”, que me ensina esses movimentos que encontram contorno e se perdem quando tento falar de trânsito.

Por isso aparecem esses poemas, transitados e transitórios, escritos por uma capixaba no Rio, Lisboa, Porto e Berlim, e que não falam exatamente sobre nada disso, mas tem uma cor do que eu estava pensando nesses céus de lá.

 

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Na água alguma coisa não existe de habitat
que o corpo segrega e
Se as células estivessem um passo além
Saberiam de portar de acordo
Com novas configurações, novos movimentos
Gestos de fadiga câimbra e falta de ar.
Delira o ar onde só tem água
Exigindo agressivo o mergulho
Mais além, sempre mais aérea
Em voo de peixe pequeno.
Descalça as algas porque salgado é mar
Enruga a pele e assim se aproxima
De seus vizinhos aquáticos
E desenha o contorno
Do movimento das gotas
Reformulando o seu caber
Pausa mal posicionada no lugar do entre
E algo de uma homeostase que existia
Arranca com violência o prosseguimento das partículas
Insistindo em nadar como quem anda
Pra frente quando aprofunda
Como quem acredita que alguma hora chega
E não entrou porque não sabia esperar
A água abrir a porta depois da campainha
E se batesse não abria.

 

……………………………………………………

 

Imaterial de quase coisa
Trocando elétrons e nêutrons
Em dança de tensão constante

Ferreiro que manipula o aço
No calor do corpo
Sempre em pretensão de guerra

E delira um rio porque escapa sempre e
Mergulha a mão numa água que não molha
Ou quase encosta       então

Corre sempre pra estar na hora
Achando que tem ainda
E chega no meio
Perguntando aonde fica.

 

……………………………………………………

 

Madrepérola de textura
Atravanca o que não desliza
Perde valores dentro da bolsa
Mas assim
Desarma o que tenta passar
Despercebido entre os buracos
Por baixo e por cima
Ela dizia
Da aspereza que arranha
E por isso
A imagem na fotografia
Era pornográfica
Quando mostrava
Os poros do olho fechado
Que a língua lambida não sabe sentir
Pois tem mistério em qualquer música
E ter um tufão nos quadris
Era dizer daquilo que atravanca
E atrapalha a continuação
Atravessa o sinal fechado
Atropela o final feliz
Atrasando a lógica
Dos fascistas.

 

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Poema Antologia, de Manuel Bandeira;
Todos os CDs do Sérgio Sampaio, pérola de Cachoeiro de Itapemirim;
Arthur Verocai, música Na boca do sol;
Foto tirada em Madrid, 2019.

 

Inês Oliveira
estudante de Letras na UFF, nascida no Espírito Santo e moradora do Rio de Janeiro. Apaixonada por literatura e música brasileira. Escritora de poemas dispersos e inacabados, nunca antes publicados exatamente por causa disso.

Oito anos sem Affonso Ávila

Oito anos atrás, 26 de setembro de 2012, morria o poeta, pesquisador e ensaísta, meu vô, Affonso Ávila. Em homenagem à sua memória, eu e meu amigo, o poeta Alan Cardoso da Silva, escolhemos seis de nossos poemas favoritos do poeta poente para publicar aqui.

Nascido 19 de janeiro de 1928, o belorizontino com raízes em Itaverava (MG), foi um dos organizadores da Semana de Poesia de Vanguarda de 1963, em BH, além de um dos fundadores da revista de poesia Tendência (1957), que dialogava com os horizontes concretistas e seus amigos paulistas, Haroldo e Augusto de Campos.

Tentei eu mesmo descrever sua poesia, mas gosto tanto do que Paulo Leminski diz para a primeira edição de O visto e o imaginado, que achei melhor assinar em baixo das palavras do judoka bigodudo de Curitiba: “Affonso Ávila é um mestre. Em Minas, é o cara que consegue fundir a tradição, a cabeça lá no ano 2 mil. Barroco-ficção científica.”1.

Assim como Haroldo, Affonso foi um grande pesquisador do Barroco, tendo sido figura fundamental no levantamento e na preservação do patrimônio artístico e arquitetônico de Minas Gerais. Entre seus seus livros de ensaio, destacaria O lúdico e as projeções do mundo barroco (1971) e O poeta e a consciência crítica (1978), em que ele diz:

“E a nossa responsabilidade como artista paradoxalmente adulto, num país subdesenvolvido ainda como o Brasil, nos prescreve uma atitude de permanente consciência crítica, consciência tanto diante da realidade de nosso contexto, quanto da dignidade afirmadora de nossa própria arte. E só estaremos exercendo essa consciência quando formos capazes de inventar, pois — para utilizar aqui um conceito bem adequado de Michael Butor — ‘toda invenção é crítica’.”2

Alguns de seus livros ainda podem ser encontrados por aí, principalmente em sebos, mas toda sua produção poética de 1949 a 2005 foi reunida em Homem ao termo (2008), publicado pela editora da UFMG, faltando apenas seus últimos dois livros, Poeta poente (2010) e Égloga da maçã (2012). Vale dizer que a UFMG também publicou Inventário (2004), reunindo os poemas de 1951 a 2002, de Laís Corrêa de Araújo (1928-2006), sua esposa, minha vó.

Bem, é isso, espero que gostem dos poemas que escolhemos do vô Fonka. Acreditamos que conversam muito bem com o Brasil contemporâneo. Quem sabe não podem nos ajudar a nos manter conscientes e críticos, com o olhar que mira simultaneamente o Barroco colonial e o futuro incerto, sempre inventivos.

Pedro Ávila

 

(Código nacional de trânsito, 1972)

 

dentro da faixa
fora do perigo
dentro da fauna
fora do perigo
dentro da farsa
fora do perigo
dentro do falso
fora do perigo
dentro do fácil
fora do perigo

(Código nacional de trânsito, 1972)

 

LE BATEAU IVRE

Os jovens cabeludos da rua onde mora o poeta têm fama de fumar maconha

Os jovens cabeludos da rua onde o mora o poeta fumam maconha

Os jovens cabeludos fumam maconha na rua do poeta

Os jovens cabeludos fumam maconha na casa do poeta

Os jovens cabeludos fumam maconha em sua casa com o poeta

Os jovens cabeludos buscam maconha na casa do poeta

Os jovens cabeludos buscam droga na casa do poeta

Os jovens cabeludos saem drogados da casa do poeta

Os jovens são drogados pelo poeta

O POETA É UM TRAFICANTE DE DROGAS

(Discurso de Difamação do Poeta, 1976)

 

CHAFARIZ DA GLÓRIA

& desta água não bebere
i & deste álcool não me embebeda
rei & deste ácido não me esclero
sarei & deste asco não me e
nojarei &

(Cantaria Barroca, 1975)

 

RETRORETRATO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Poeta Poente, 2010)

EXPRESSÃO CORPORAL

liberar  o  corpo   deste  pano  grosso

deste   pelo   exposto   caldo   de  cult

ura  corte  e  costura   mídia  e    ficçã

o   meia-confecção   apertada  no pei

to  afetada  jaqueta  de    má  consciê

ncia   máscara  de  nascença arrocha

da  ao   rosto  rótulo  rubrica   image

m  impune  ícone  ideológico

liberar o  corpo  deste  estômago sô

frego  deste  espaço   da  fome lugar

da   devoração  dia  nunca da caça d

ia  sempre do caçador dente moend

a  do  saque  digestão  do animal pr

edador    praga do egito    ave  de ra

pina  rato  formiga  gafanhoto  gula

de pantagruel

liberar  o  corpo  desse  potro  solto

deste   pênis   pênsil  pater  et  circe

nsis   regalo   de  galo  guru  do  org

asmo  ereção  do  rei  salomão  eros

do  barba  azul   astral  de  serralho

sarraceno    fatalidade  do  falo    fú

ria  fornicandis   império  dos  sent

idos  insânia  semântica

 

a chave do código escreve-se     strip-tease

(O visto e o imaginado, 1990)

NOTAS:
  1. ÁVILA, Affonso, O visto e o imaginado, Editora Perspectiva, 1990 ^
  2. ___, O poeta e a consciência crítica, Summus Editorial, 1978 ^

Pequena Antologia da Pandemia — por Alan Cardoso da Silva

Reuni nesta — muito — pequena antologia poemas de alguns autores que tenho lido durante a pandemia e o isolamento social. A motivação principal na escolha dos poemas, no entanto, é o diálogo que eles estabelecem com nosso tempo. Falando já de doença e enclausuramento bem antes disso se tornar assunto tão (tristemente) banal.

Alan Cardoso da Silva.

***

 

Matheus Gúmenin Barreto (1992)

Casa
O silêncio que contém
os objetos da casa
– mesa cadeira tapete
panela livros

o silêncio que têm
no interior
colhido nas longas horas em
que olho algum
lhes pousa na superfície.

o silêncio colhido
na atribulada solidão
que as coisas de uma casa têm e são

e que, assim, fazem-na
casa.

*

Missa de 7º dia
A cama que criam absoluta
porque carregou ali quem morria
e, morto, tomou posse
        [do que
        [a cama é

– essa cama foi batida
        [ao sol
        [refrescada, posta
        [ao craquelado

        [da luz
        [de algum quintal

e perdeu seu morto
como quem perde um tostão.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004)

O hospital e a praia
E eu caminhei no hospital
Onde o branco é desolado e sujo
Onde o branco é a cor que fica onde não há cor
E onde a luz é cinza

E eu caminhei nas praias e nos campos
O azul do mar e o roxo da distância
Enrolei-os em redor do meu pescoço
Caminhei na praia quase livre como um deus

Não perguntei por ti à pedra meu Senhor
Nem me lembrei de ti bebendo o vento
O vento era vento e a pedra pedra
E isso inteiramente me bastava

E nos espaços da manhã marinha
Quase livre como um deus eu caminhava

E todo o dia vivi como uma cega

Porém no hospital eu vi o rosto
Que não é pinheiral nem é rochedo
E vi a luz como cinza na parede
E vi a dor absurda e desmedida.

*

No tempo dividido
E agora ó Deuses que vos direi de mim?
Tardes inertes morrem no jardim.
Esqueci-me de vós e sem memória
Caminho nos caminhos onde o tempo
Como um monstro a si próprio se devora.

Affonso Ávila (1928–2012)

Quadrilátero
andar ao ruído do próprio eco
imóvel andarilho sem trilha
ensimesmado passo a passo
percorrido diâmetro da ilha
diapasão ao reto impassível do teto
onde está a ogiva a admissível janela
em vão rastrear o retrospecto
apagado à escova do quadro de giz
pé ante pé o salto em falso
do que fugiu ou falhou na sua fala
palavra retrocedida ao dicionário
na submersa semântica
o poço do poço
calabouço
parede óbice

Maria Lúcia Alvim (1932)

XII
O olho transpõe a vidraça
e alcança o olhar — também
o pensamento se esgarça
fura vidraça — além
não há nada que refaça
memória se não me vem…
o que sou tão longe passa:
ao saber de mim ninguém
em certeza só trespassa
as outras que vivo sem
(ó visão — já me ultrapassa
o querer de mim alguém)
mas lentamente se embaça
se esvai o que o olhar detém.

James Joyce (1882–1941)

Bahnhofstrasse (trad. Alípio Correia de Franca Neto)
Olhos que zombam mostram com sinais
A rua em que ando enquanto a tarde cai —

A rua é turva, e seus sinais, violáceos —
A estrela do encontrar-se e do apartar-se.

Ah, estrela má! Do sofrimento
Foi embora, o coração com alento,

E falta um velho e sábio pra entender os
Sinais, que me acompanham zombeteiros.

Paulo Henriques Britto (1951)

Dez exercícios para os cinco dedos -II
O desespero tranquilo dessas manhãs
sem sol, sem álibis nem soluções.
No máximo uma brisa, não necessariamente
fresca. (Nada, aliás, é necessariamente
nada.) Um automóvel pigarreia e passa,

interrompendo o arrazoado irrelevante
dos pássaros nas árvores. Nenhum sinal
de uma evidência capaz de abstrair
esta manhã vazia de intenções
e consequências, e absolver o dia.

*

Memento Mori — I
Nenhum sinal da solidão se vê
lá onde o amor corrói a carne a fundo.
Dentro da pele, no entanto, você
é só você contra o mundo.

Esta felicidade que abastece
seu organismo, feito um combustível,
é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível.

Alan Cardoso da Silva (1998)

Triste herança
Toda a umidade que de nós rouba o sol
cairá de uma vez só sobre a cabeça da humanidade
como no céu uma aeronave infrassônica
atropela reticentes gotículas de chuva

Estamos diante dos corpos dos homens que matamos
então diante e acima dos corpos dos homens que matamos
Um dia toda a humanidade que roubamos nós sob o sol
cairá úmida sobre nós em protesto

e será tola toda
e qualquer tentativa

de progredir nossas penas
de reverter o processo.

Poetas

Matheus Guménin Barreto (1992-) é um poeta e tradutor mato-grossense. Os poemas presentes nessa mini antologia são de seu livro “A máquina de carregar nadas” (7letras, 2017). Matheus está com livro novo, intitulado “Mesmo que seja noite” (Corsário-Satã,2020) e que você pode comprar na pré-venda aqui.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004) foi uma poeta portuguesa, considerada uma das mais importantes do séc. XX. Também foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prêmio Camões. Os poemas aqui presentes fora retirados de outra antologia, organizada por Eucanaã Ferraz, “Coral e outros poemas”(Companhia das Letras, 2018), que você pode comprar aqui.

Affonso Ávila (1928–2012) foi um poeta, pesquisador e ensaísta mineiro. Foi esposo da também poeta e ensaísta Laís Corrêa de Araújo (1929–2006) e juntos foram pais e avós de uma casa de acadêmicos e artistas. Os poemas aqui presentes foram retirados do livro “Poeta poente”(Perspectiva, 2010), que você pode comprar aqui.

Maria Lúcia Alvim (1932-) é uma poeta e pintora mineira. Os poemas aqui presentes foram retirados de seus “XX Sonetos” (Bem-te-vi, 2011), que você pode comprar aqui. Maria Lúcia cedeu um manuscrito de um livro seu, que a princípio só seria publicado postumamente, aos poetas Ricardo Domeneck e Paulo Henriques Britto, que estão editando o livro e devem publicá-lo em breve; leia mais aqui.

James Joyce (1882–1941) foi um escritor e poeta irlandês. Mais conhecido pelo grande “Ulysses” (1922). Os poemas aqui presentes foram retirados do livro “Pomas, um tostão cada” (Iluminuras, 2014), na tradução de Alípio Correia de Franca Neto. Você pode comprar o livro aqui.

Paulo Henriques Britto (1951-) é poeta, contista, tradutor e professor universitário da PUC-Rio. Os poemas aqui presentes foram retirados de seu “Trovar Claro” (Companhia das Letras, 2006), que você pode comprar aqui.

Eu (1998-) sou um poeta fluminense filho do meu pai e da minha mãe e me meti aqui de encherido. Tenho um livro de poemas que você pode comprar aqui e poemas avulsos publicados nas revistas Ruído Manifesto e Mallarmargens que você pode ler aqui e aqui.

 

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Imagem: Wyndham Lewis, Composition 1913.