Três poemas de Samuel Beckett, por Alan Cardoso da Silva

Três poemas de Samuel Beckett, traduzidos por Alan Cardoso da Silva

Samuel Beckett é um escritor irlandês que nasceu em Dublin, capital da atual República da Irlanda, em 1906 e morreu em Paris, França, em 1989. Beckett, durante a Segunda Guerra Mundial, ingressou na Resistência Francesa para combater os nazistas no continente europeu – dada a neutralidade do seu país de origem indisposto a aliar-se à Inglaterra imperialista. Apesar de muito discutida a influência da Segunda Guerra no teatro e na prosa de Beckett, pouco é dito acerca do impacto causado em sua poesia. Por isso, escolhi traduzir esses três poemas escritos em plena guerra, entre os anos de 1937 e 1945, como projeto de TCC em Letras, pela UFF.

 

Dieppe

outra última maré
o seixo morto
a volta então a pé
até a luz remota

 

Dieppe

again the last ebb
the dead shingle
the turning then the steps
towards the lights of old

*

Saint-Lô

Vire vai virar em outras sombras
não-nascidas tremer entre claras vias
e a velha alma esquecida
decair no próprio caos

 

Saint-Lô

Vire will wind in other shadows
unborn through the bright ways tremble
and the old mind ghost-forsaken
sink into its havoc

*

Antipepsis

Era o número inconstante
No santo Stephen verdejante
Onde tudo é diferente
Burro atrás, carroça à frente.
Em acordo deu-se esse caso,
Sem hasard, ou seja, acaso,
Porque o burro consciente
Não se julgava inteligente.
Qual foi o pássaro que pia
Mater chocou tal utopia
Não se sabe. Ele ou ela,
Rindo, livre, sem mazela,
Com esse feito fez-se a mente
Um vácuo conveniente,
Ainda caminha enquanto pode,
Come, peida, caga e fode,
Crendo que o acasalamento
Sobreviveu ao pensamento.
Pelas ruas não mais escasso
O grito: Uma ideia toma espaço
Ochone! Ochone! Ideia humana!
Puríssima Virgo! Que má fama!
Traídos, tristes e tortos!
Tragam seus mortos! Tragam seus mortos!

 

Antipepsis

And the number was uneven
In the green of holy Stephen
Where before the ass the cart
Was harnessed for a foreign part.
In this should not be seen the sign
Of hasard, no, but of design,
For of the two, by common consent,
The cart was the more intelligent.
Whose exceptionally pia
Mater hatched this grand idea
Is not known. He or she,
Smiling, unmolested, free,
By this one act the mind become
A providential vacuum,
Continues to stroll amok,
To eat, drink, piss, shit, fart and fuck,
Assuming that the fucking season
Did not expire with that of reason.
Now through the city spreads apace
The cry: A thought has taken place!
A human thought! Ochone! Ochone!
Purissima Virgo! We’re undone!
Bitched, buggered and bewilderèd!
Bring forth your dead! Bring forth your dead!

*

 

Os três poemas foram encontrados em The Collected Poems of Samuel Beckett, oganizada por Seán Lawlor e John Pilling, publicado em 2012 pela Grove Press.

“Dieppe” e “Saint-Lô” foram publicados originalmente no The Irish Times em 1945 e 46 respectivamente. “Antipepsis” foi publicado postumamente em 1997 na revista Metre: magazine of internatoinal poetry.

Imagem: desenho de Beckett, por Alan Cardoso da Silva

2 comentários em “Três poemas de Samuel Beckett, por Alan Cardoso da Silva”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.