Edição #1 – Editorial e Índice

Editorial

PARE AGORA! NÃO LEIA ESSA PUBLICAÇÃO INTERNÉTICA! VOCÊ SE ARREPENDERÁ! TERÁ SEUS SONHOS ATORMENTADOS POR PUNKS FLATULENTOS, POEMAS SEM PALAVRAS, DISCOS ARRANHADOS E PELOS ERROS DE JÚLIO BRESSANE!!! Mas se quiser, sinta-se em cas(ulos)a e saboreie nossa nova fornada de iguarias caosticas, que inauguram a primeira edição do blog-revista-coisa casulos, que é também a segunda (é uma longa história). Queremos agradecer a todo mundo que contribuiu com suas quaisqueres coisas. Suas artes e textos visunguentos são bálsamos para nossa virtatuatualidade. Bem, sem mais degolongas, eis o índice:


ÍNDICE

 

Poemas assêmicos
por Alan Cardoso da Silva

Uma leitura de “O Experimental no Cinema Nacional”, de Julio Bressane
por Eduardo Savella

caderno_de_txtr
por @scripttrix

Emily Dickinson, traduções
por Rodrigo Goulart

Mergulho Interior
por Beatriz Schreiner

Ensaio sobre a aventura literária
por Thais Carvalho Azevedo

PUMK
por Paula Costa

Os corpos e bonecos de Osamu Tezuka (parte 1)
por Pedro Ávila

Maco Maco
por Nina

Sobre o exercício do prazer: a dialética ocidental do desejo
por João Carlos Pinho

guilherme blake
por william esquálido

Tédio
por Ian Uviedo

coluna do tio San#02
por tio san

SOPA DE PATO #1

 

Uma leitura de “O Experimental no Cinema Nacional”, de Julio Bressane – por Eduardo Savella

Uma leitura de “O Experimental no Cinema Nacional”, de Julio Bressane 1

por Eduardo Savella

Sedução da Carne é um filme em duas partes, ou melhor, três. As duas primeiras são filmagens ao ar livre, a primeira em Sils Maria, na Suíça, a segunda no litoral de um país difícil de identificar, mas provavelmente árabe. A terceira é feita principalmente em estúdio com a atriz Mariana Lima, um papagaio e um prato de carne crua. Estas três partes não são completamente independentes: os corvos da segunda retornam ao final da terceira, produzindo uma significação difusa, difícil de agarrar.

Na primeira parte, a câmera procura o formato do “Rochedo” de Surlej, ou a pedra de Nietzsche, multiplicado na forma da casca de uma árvore ou nas montanhas alpinas. O que é a ponta de uma micromontanha que copia a grande? Como a casca da árvore repete a montanha e vice-versa? Como o Brasil está em Surlej? Na segunda parte, a câmera do cineasta que filma os pescadores é completamente livre. Ele a coloca em cima do cabo que puxam para recolher a rede. Contraste entre o trabalho manual e o olho da câmera autônoma.

Sedução da Carne é, até hoje, um filme diferente da ideia usual de filme. Podemos dizer que este é um filme “de invenção”, retomando uma concepção de outro tempo. Mais ainda, é possível ligar os procedimentos deste filme com algumas obras do cinema silencioso. Algumas delas, inclusive, comentadas pelo próprio Bressane no ensaio que vamos acompanhar.

Estas notas têm dois temas. O primeiro é histórico: o começo do cinema brasileiro, ou seja, o cinema brasileiro durante o período silencioso, que vai da invenção do cinema no final do século XIX até a introdução do som, no final dos anos vinte. A ênfase é no filme documental (“natural”) – em oposição ao filme ficcional (“posado”, ou “de enredo”) – menos estudado mas, como diz Paulo Emílio no ensaio “A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930)”,

Encerrado o ciclo primitivo do cinema brasileiro, a nossa ignorância tem, diante dos anos que vêm logo depois, a sensação de um vazio total, tanto mais surpreendente que sabemos que durante esse tempo — mais ou menos uma década — o filme de enredo foi raro e a continuidade do cinema brasileiro assegurada quase exclusivamente pelo documental.

A partir do centenário de nossa independência política até o fim do cinema mudo, sabemos muito mais, de forma porém muito pouco satisfatória. Com efeito, nosso conhecimento do documental brasileiro entre a Exposição de 1922 — este ano crucial — e a Revolução de 30 é um subproduto de trabalhos que têm como objetivo o filme de enredo.

É dentro desses limites drásticos que vou me aventurar a sugerir a importância do filme documental brasileiro mudo como registro sociocultural e matéria-prima para eventuais interpretações.

O segundo tema é a noção de “cinema de invenção”, utilizada pelo crítico Jairo Ferreira como sinônimo de cinema experimental no livro Cinema de Invenção, a respeito de certos cineastas brasileiros que filmaram entre os anos 60 e os anos 80, e dos quais Julio Bressane é um dos primeiros exemplos.

No ensaio “O Experimental no Cinema Nacional”, que Bressane publicou em 1996 no livro Alguns, pela editora Imago, esses dois temas se encontram reunidos. Bressane puxa o fio historiográfico do cinema brasileiro, desde o primeiro filme rodado aqui, defendendo a ideia de que o que de melhor foi feito no Brasil pode ser caracterizado como “experimental” e, mais ainda, que a natureza do filme brasileiro é ser experimental. Isso pode ser inferido, por exemplo, na frase do ensaio: “Noto que nosso cinema ou é experimental ou não é coisa alguma!”.

O que significa dizer que um filme é “experimental”?

“Júlio Bressane, Batuque dos Astros”, capítulo sobre Bressane no livro de Jairo, Cinema de Invenção. A epígrafe é do Padre Antonio Vieira:

Os erros e as ignorâncias é certo que são muitos mais que as ciências porque para saber e acertar não há mais que um caminho e para errar infinitos.

O verbo errar também significa “caminhar sem rumo”. Porém, quem caminha sem rumo é porque procura alguma coisa.

Jairo Ferreira, na introdução de Cinema de Invenção, cita um longo trecho de um discurso de Orson Welles que sintetiza o que quer dizer a atitude experimental no cinema:

É demasiado tarde para os sistemas. Não vivemos à beira do abismo, mas no seu ponto mais profundo, e nenhuma crença ou uma filosofia pode tocar as almas que respiram ainda sob os escombros. Que é um sistema? O sistema segue as mensagens dos profetas, os exemplos dos santos, os ensinamentos dos legisladores, as descobertas dos filósofos e dos sábios. E é a ele que seguimos por nossa vez, em vez dos homens que lhe deram origem; nem isso: não seguimos um sistema, conformamo-nos com ele. Devemos procurar não a força no comando ou a disciplina nas fileiras, mas o maior número possível de seres humanos. Defendamo-nos antes que qualquer defesa seja impossível, passemos à ofensiva antes de perdermos para sempre os únicos valores pelos quais ainda vale a pena batermo-nos.

E por que vale a pena batermo-nos? Uma bandeira? Uma classe? Uma ideia? Um sistema? Não, pelo homem, com a sua variedade e a sua complexidade, a sua ausência de limites. Não se trata de niilismo nem de anarquia, mas de uma catolicidade de aproximação, uma integridade da pessoa humana.

A única coisa por que vale a pena batermo-nos é a que é quase impossível defender; o simples direito de escolha, o dever sagrado da iniciativa.

Não é o peso da sabedoria humana que nos oprime, mas o dos sistemas. Devemos nos libertar dos sistemas e concentrar todos os nossos esforços a estudar-lhes as origens; a estudar a verdade e a beleza de onde os sistemas tiram a sua maligna eficácia.

Não há que procurar uma forma qualquer de salvação. Há que despertar perante o fato de que tudo o que vale a pena nos espera ainda.

A distinção que Welles faz aqui é entre experimento e sistema. Ou seja, todo sistema nasce de uma experimentação. A época “de escombros”, indicada por Welles, ou seja, a nossa, a da modernidade, exige experimentação constante.

Exemplo: todo bebê é um ser experimental. A primeira vez que um bebê chora, ele está realizando um experimento. Depois de apreender o resultado do experimento, ele o eleva a sistema: na maior parte das vezes em que chorar, será socorrido pela mãe. O sistema perdura assim durante toda a infância, até ser substituído por outro.

Se tomarmos experimento como sinônimo de invenção, toda obra de arte tem uma parte de sistema e uma parte de invenção. Um filme da Pixar como Luca, por exemplo, apresenta uma série de procedimentos codificados num sistema: lugares-comuns narrativos, técnicas de animação aperfeiçoadas pelo estúdio, gags feitas a partir da reutilização de muitas outras já experimentadas e sistematizadas no gênero da animação. Isso não quer dizer que o filme seja desprovido de invenção. Talvez a própria ideia de fazer um semi – coming of age com monstros marinhos que são ao mesmo tempo habitantes de uma vila italiana constitua um ato de invenção. A diferença está na ênfase. O cinema de invenção enfatiza ou procura o extremo da experimentação, da busca pelo novo e pelo original, ou então da busca pela forma que pouco deve a um sistema, pois a situação que ela deve cristalizar também não tem precedentes. Toda obra de arte precisa da invenção. Como diz Viktor Chklovski num ensaio famoso, “A arte como procedimento”, o procedimento fundamental da arte é o do estranhamento, ou seja, o de representar o mundo de modo que o percebamos como se o estivéssemos vendo pela primeira vez. A obtenção deste efeito só é possível se houver uma margem de invenção dentro dos sistemas utilizados pela obra de arte particular. A ênfase característica do cinema experimental está expressa na atitude de invenção que Bressane enfatiza quando diz, citado por Jairo: “poesia é um chegar ao estado de invenção permanente”.

Essa percepção da originalidade está intimamente ligada ao aspecto transitório da modernidade. Como diz Paulo Emílio no ensaio “Revolução, cinema e amor”:

Em revolução, cinema ou amor, a apreensão de conhecimentos, para agir e julgar, se processa num esquema dialético anárquico que torna rapidamente irrisórios o planejamento e as intenções. Nas ciências da natureza e nas artes da engenharia tudo se passa realmente como se houvesse uma coincidência feliz entre as normas da razão humana e o funcionamento da realidade. Nos domínios cobertos pelas chamadas ciências do homem e pelas artes do prazer, a necessidade de ininterrupta invenção modifica a natureza da sua intimidade entre o sujeito conhecedor e o objeto de seu conhecimento.

Ou seja, o terreno humano, diferente do físico ou natural, se transforma constantemente, e mais ainda desde a revolução industrial. Os sistemas, na arte, não podem durar muito sem se tornar datados e inoperantes. Daí a necessidade de contínua invenção e a valorização da originalidade perante a reutilização de modelos, desde o romantismo. Ou seja, a transformação permanente do mundo humano exige invenção permanente da representação artística. Lembrar, no entanto, que o funcionamento da ciência não é tão estável como aponta Paulo Emílio no trecho, além de que só existe através de seu método experimental (Daniel lembra contraste com “O Romance Experimental”, 1880, de Èmile Zola).

A invenção é o momento de nascimento de sistemas futuros. É o broto que se molda diante da posição do Sol, é a tabula rasa, é o não-sistema, é a descoberta. Exatamente como Oswald de Andrade escreveu no “Manifesto da Poesia Pau Brasil”:

A invenção

A surpresa

Uma nova perspectiva

Uma nova escala.

E, depois:

[sejamos] Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem antologia.

Nesse sentido, é claro que o primeiro filme seria necessariamente um filme experimental ou de invenção. Tudo o que foi feito nos princípios do cinema é invenção, pois não havia sistema. Daí o encanto absoluto de todos os filmes dos primeiros anos do cinema. O sistema técnico ainda precisava se estabilizar (as técnicas eram múltiplas “invenções”, depois sintetizadas num único aparato), o sistema de procedimentos artísticos, de representação, adotou numerosos sistemas que vem e vão ao longo de toda a história do cinema.

O primeiro filme rodado no Brasil foi um conjunto de vistas da Baía da Guanabara, feitas a partir do transatlântico francês Brèsil. Segundo Paulo Emílio, no ensaio “Panorama do cinema brasileiro: 1896-1966”,

Eram os Segreto um grupo de irmãos imigrados da Itália, em épocas diversas, e no momento que nos ocupa vamos encontrar quatro deles no Rio: Gaetano, Afonso e Luís, além de Pascoal. É de se presumir que Gaetano devia ser o mais velho: não traduziu o nome e já constituíra família. Tinha um serviço de distribuição de jornais e participava igualmente das atividades do Salão. Pascoal devia andar pelos trinta anos e os dois outros irmãos, certamente mais jovens, trabalhavam para ele. Moravam todos nos andares superiores do salão de diversões da rua do Ouvidor.

Em 1898, voltando ele [Afonso] de uma das suas viagens, tirou algumas vistas da baía de Guanabara com a câmera de filmar que comprara em Paris. Nesse dia — domingo, 19 de junho —, a bordo do paquete francês Brésil, nasceu o cinema brasileiro. Daí por diante, sucedem-se as filmagens. Dia 29, Afonso registrou o cortejo que conduziu ao cemitério os despojos de Floriano Peixoto e, no dia 15 de julho, o desembarque de Prudente de Morais e comitiva no Arsenal de Marinha. Os pontos importantes da cidade foram focalizados: o largo do Machado, a praia de Santa Luzia, a igreja da Candelária, o largo de São Francisco de Paula… A rua do Ouvidor, apesar de sua importância, era estreita e demasiado sombreada para se prestar a filmagens que exigiam luz natural.

Ainda segundo Paulo Emílio, não há registro de quando essas vistas brasileiras foram exibidas. No mesmo ano houve um incêndio no estabelecimento dos irmãos Segreto, após o qual foi reaberto e a “a exibição de filmagens de assuntos brasileiros tornou-se então habitual.”

Um parêntese: Jean-Claude Bernardet, em Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro, em que discute as atitudes historiográficas de Paulo Emílio e Alex Viany, esclarece que as informações sobre os irmãos Segreto só foram historicamente individuadas depois do livro clássico de Viany (por isso não há menção a eles no clássico). Segundo: Bernardet duvida da existência dessas primeiras filmagens de Afonso. Seu argumento é a de que a técnica era novíssima e Afonso experimentava o equipamento, a luz tropical é diferente da europeia, não há registros da exibição, etc. A dimensão “experimental” do filme de Afonso é colocada de modo mais trivial por Bernardet:

Este seria o primeiro filme filmado no Brasil, portanto também o primeiro revelado: havia conhecimentos e práticas suficientes em relação ao banho e ao tempo de revelação? Sendo uma primeira revelação, não podia deixar de ter algo de experimental.

De todo modo, esse argumento evidencia ainda mais a significação mítica desses primeiros filmes, que se transformam em ideia pura. É através desta abstração que Bressane introduz Segreto em seu ensaio, “O Experimental no cinema nacional”, sem nunca, naturalmente, ter visto os filmes.

Aliás, esse marco de nascimento é o de uma filmagem, não o de uma exibição, como ressalta Bernardet. As exibições de filmes estrangeiros já aconteciam no país antes de 1898. O estudo básico dessa primeira época do cinema brasileiro, ao qual faz referência Paulo Emílio, é o livro esgotado A Bela Época do Cinema Brasileiro de Vicente de Paula Araújo. Flora Süssekind, por sua vez, em Cinematógrafo de Letras, explica os efeitos na literatura brasileira causados pela chegada das técnicas modernas oriundas do século XIX (telégrafo, telefone, máquina de escrever), entre elas o cinema. Nesse livro há várias descrições do início da recepção do cinema no país.

Afonso Segreto filmou “a entrada da Baía de Guanabara com seus fortes portugueses e megalitos lendários”, como escreve Bressane.

A câmera estava em movimento e oscilava, visto se encontrar num navio. Bressane chama de megalitos as formações rochosas características do relevo carioca, relacionando-os assim com a permanência pré-histórica da paisagem (megalitos são rochas dispostas em tempos pré-históricos pelo homem).

O Pão de Açúcar e o Corcovado são, metaforicamente, “megalitos lendários”, assim como o rochedo de Surlej.

A paisagem sensual e insólita dos morros do Rio de Janeiro chamam a atenção para o mistério, são estranhas em si e remetem ao Rio de Janeiro antes da chegada dos portugueses.

Assim, na primeira filmagem brasileira estão presentes figurações míticas da história e da pré-história do país. O filme incorpora as condições de sua produção: estar sobre um navio fornece o elemento da mobilidade da câmera (travelling). As formas expressivas dos morros fornecem as linhas parabólicas registradas no filme. “O Pão de Açúcar era um teorema geométrico”, anota João Miramar no romance de Oswald de Andrade (1924). Segreto modela seu filme conforme o que dispõe, descobre o filme, sem apoio de sistemas (justamente porque não havia ainda nenhum). Tudo é descoberta nos primeiros anos do cinema.

Para Bressane, esse primeiro filme é “esboço do signo” do cinema brasileiro. Signo aqui é macrossigno, esquemático: aquela imagem sintética que nasce na mente na medida em que conhecemos melhor os elementos em separado, ou seja, os filmes.

O senso de invenção, segundo Bressane, também se encontra nos filmes (muitos perdidos, outros não) do Major Luiz Thomaz Reis, cineasta que acompanhava o Marechal Cândido Rondon nas numerosas expedições que fez ao redor do território brasileiro, em especial na Amazônia. O filme mais antigo de Reis catalogado na Cinemateca Brasileira se chama Os Sertões de Mato Grosso e vem com data de 1912-13, e não consta como perdido. O filme Rituais e festas Bororô, de 1916, é mais famoso e uma cópia terrível está espalhada virtualmente.

Ao Redor do Brasil, de 1932, reúne filmagens suas de várias expedições em lugares diversos do país, de afluentes do Xingu (seguindo os passos do explorador inglês Percy Fawcett) à inspeção de diversos pontos da fronteira.

O tipo de filme feito por Reis nessas expedições é o documental, comentado por Paulo Emílio como sendo a vertente pouco estudada – ou preservada – do cinema silencioso brasileiro. A função da produção documental é antes referencial: os “filmes de atualidades” davam a ver uma realidade reconstituída do país nas salas de cinema. Aqui se encontra a fascinação genética do cinema pela reprodução da imagem em movimento e sua capacidade de transportar o espectador para lugares distantes, através do maravilhamento que a própria realidade produz. Nesse tipo de filme, a ficção e mesmo a narrativa têm seus papéis minimizados (em comparação ao filme de enredo) em favor do registro eficaz na representação de elementos da realidade selecionados de modo pragmático, com o intuito da sedução. À ficção às vezes prevalece o caráter discursivo sobre a realidade. À narrativa, estruturas mais livres como a justaposição de episódios ou pequenas sequências em torno de núcleos espaço-temporais definidos por cartelas. O filme documental realça sua função de documento no sentido histórico ou retórico, em detrimento de sua função poética. Esta, é claro, está sempre presente: a feitura do documento só se dá através de procedimentos estéticos. A diferença está na ênfase, nos resultados e na função dada ao trabalho estético.

Reis parece ter se lamentado do pouco tempo que tinha para planejar seus filmes, ou seja, lhes dar uma estrutura, desenvolver seus procedimentos, ou mesmo aplicar sistemas ao filme. Imagine-se que, numa outra estrutura de produção, Reis teria seguido o caminho de documentaristas como Robert Flaherty ou Humberto Mauro, que se utilizam da reconstituição, da estruturação sofisticada da narrativa e de outros procedimentos que transfiguram a realidade sem, no entanto, quebrar o elo documentário com a mesma (este elo mesmo, necessariamente baseado em convenções que se transformam com o tempo).

“Operador cuidadoso”, “composições que combinam rigor e improviso”, “Uma luz apreendida com grande domínio técnico e originalidade”, é como caracteriza Bressane a técnica de Reis. Bressane enfatiza aqui, justamente, a técnica do fotógrafo que lida mais diretamente com a vida, ou seja, com mediação apenas suficiente no eixo imaginação – fato.

Como registrar com o olho da câmera o povo brasileiro, encontrando-se com ele pela primeira vez, na franqueza da improvisação e de modo a construir, ou comunicar, as impressões do encontro de forma clara para o espectador?

A invenção aqui, novamente, está na experiência da primeira vez: assim como Segreto, Reis ataca com a câmera a realidade sem conceber sistema, mas moldando através de sua técnica um filme que não está em sua mente antes da viagem.

Assim, como experimento do cinema sendo “revelado nas águas da própria selva”, Reis também registra assuntos míticos brasileiros, relacionados à história do Brasil antes do Brasil. Bressane fala da Visão do Paraíso, livro de Sérgio Buarque de Holanda sobre o mito do novo mundo na visão de portugueses e espanhóis.

Em outras palavras, o cineasta de invenção não começa com uma ideia de cinema, mas a encontra durante a criação. Ou seja, encontra formas novas. No caso do documental tal como praticado por Reis, é um protótipo de intérprete da realidade e da experiência com estrutura livre. Aliás, também o cineasta português Silvino Santos realizou filmes na amazônia, muito populares na época, contemporaneamente a Reis: No País das Amazonas, No Rastro de Eldorado.

“Deixar de escrever dentro de templos, começar a escrever dentro de laboratórios”, diz Mário Faustino, como bem lembra Antena. “Justamente, o olhar da criança”.

Outro caso análogo é o do cineasta Benjamin Abrahão Botto, que acompanhou com a câmera o bando de Lampião. Antes, Abrahão tinha sido secretário de Padre Cícero. Diferente do equilíbrio de Reis, o filme de Botto, segundo Bressane, tem “luz solarizada, estourada, sem rígido controle, irregular, com uma câmera de corda na mão, brutalista, criou uma poderosa imagem-dejeto, bárbara (…). Uma imagem-canudos”.

Assunto das imagens: elementos míticos em Reis e Botto. Lampião já era mito em vida (como aponta Zé), antes de iniciar a tradição do filme de cangaço. “Imagem-canudos” quer dizer imagem de resistência frente à civilização europeia. A comparação entre o bando de Lampião e a pacificidade dos índios de Ao Redor do Brasil sugere a hipótese (levantada pelo Oscar) de que os procedimentos do filme de Reis seriam muito diferentes, talvez mais próximos aos do filme de Lampião, caso o encontro a ser filmado fosse com uma tribo hostil à invasão.

Com o bando de Lampião há o desafio marcado. O encontro entre cineasta e assunto não é “legal”, no sentido jurídico, como foram as expedições de Rondon. Nem é desprovida de risco ao cineasta. Trata-se de encontrar os criminosos tachados pela civilização. O governo quer exterminar os cangaceiros, assim como fez com Canudos. As imagens de Botto estão carregadas de antagonismo e desafio. São misteriosas também porque o destino, selado pela sociedade, de sujeito e objeto parecem se materializar no próprio filme. São “imagens perturbadoras” (Bressane), “filme de terror” (Felipe).

Não é possível analisar a estrutura do filme planejado por Botto, já que a versão que temos é uma reedição de fragmentos de seu material que sobreviveram à apreensão do filme pelo Estado Novo, edição feita quase vinte anos depois da morte do cineasta. Contém vestígios de encenação narrativa, como nas tomadas em que os cangaceiros encenam um confronto. Há outra cena em que todo o grupo está sentado ao redor de um cartaz de publicidade de Aspirina. As cenas, porém, na reconstituição que existe, não se completam e se dissolvem em fragmentos da vida em comum do grupo. É recorrente o aspecto do retrato, como no filme de Reis. Aqui, recorre a aproximação espacial da personagem em relação à câmera. Botto, que parece não se referir a nenhum sistema de representação anterior, usa a câmera como se ela tivesse acabado de ser inventada, qualidade raríssima que define o cinema de invenção. É o caso do seguinte procedimento, que se repete com alguns personagens, especialmente com Lampião: a figura se aproxima da câmera até que o quadro recorta o sorriso ampliado. Depois a câmera se levanta e mostra o rosto inteiro, amigável, que conversa como se a tomada fosse um ensaio para a verdadeira cena. Lampião nunca cabe no quadro (como apontou Nino), é maior que Botto, bigger than life. Junto com a aproximação do rosto de Lampião, a outra aproximação mais expressiva do filme é a em que Dadá (obrigado ao Elvis pelo reconhecimento da dita cuja) aponta de brincadeira uma arma para a objetiva de Botto. Isto reflete a integração de equilibrista sem rede do cineasta no grupo. Home movie com roleta, fragmento, variação. Caso modelar de adequação da forma ao assunto, dever de todo cineasta.

Sermões (filme, O Encoberto); Sertões (livro, Antonio Conselheiro). Trechos do filme de Botto são utilizados por Bressane em Sermões, a história de Antonio Vieira, numa interpolação entre Lampião e a profecia do retorno do Encoberto pelo grande orador, aliás, interpretado por Othon Bastos, que sobrepõe a tudo sua interpretação antológica do cangaceiro Corisco em Deus e o Diabo na Terra do Sol, efetivamente citado por Bastos e Bressane no ímpeto de um giro de braços abertos.

“O Major Reis e Abraão Jacó formam um eixo de onde sai e por onde passa tudo que presta no nosso cinema”. Bressane estabelece esse eixo sem Limite, sem Humberto Mauro. Mas, sim, entre dois aventureiros que enfrentam o risco de territórios inexplorados para obter imagens do povo em oposição (cangaceira ou não) ao país civilizado. Aqui, o documental se adensa para registrar “O Brasil Encoberto”, título de outro ensaio de Bressane (presente no volume Cinemancia), no qual escreve: “Não, não pode ser, não é o Brasil apenas esta descomedida usura brutalista, pródiga na produção de riqueza e avara na distribuição dela…”.

Limite é um filme excêntrico. Feito por Mário Peixoto quando muito jovem, a partir de seu contato com a vanguarda cinematográfica francesa, com pouca ou nenhuma referência ao cinema brasileiro feito até então. Limite, segundo Bressane, se refere a essa vanguarda, tem um nível paródico no sentido original do termo: o de diálogo ou resposta. Limite é o filme que demonstra a consciência dos procedimentos estéticos tomando-os como próprio assunto de um filme com tema esvaziado. Com Limite, retornamos a Sedução da Carne. Nas palavras de Bressane:

A câmera na mão sempre foi a mais perturbadora posição de câmera na “coisa” do filme, muito usada desde o nascimento do cinema, mas sempre enquadrada na altura do olho. No Limite dá-se uma transgressão. A câmera na mão é colocada na altura do chão. Em visionária tomada sem corte, a câmera abandona, retira de seu enquadramento todos os elementos acessórios do filme, tais como ator, enredo, paisagem para filmar apenas a própria luz e o movimento. Cinema, ele mesmo, em Mangaratiba!

Bressane se lembra de um poema famoso de Rimbaud, Le Bateau Ivre: “o momento em que o barco-poema diz EU”, ou seja, o momento em que o aparato cinematográfico evolui independente no espaço, isolado quimicamente dos outros elementos, como a narrativa, o personagem, qualquer sistema de representação anterior. Limite é prógono do cinema de invenção. Em momentos como esse, de Limite, podemos reconhecer ancestrais diretos de técnicas utilizadas por Bressane, por exemplo, em Sedução da Carne.

Enfim, o conceito de experimental de Bressane não exclui o cinema industrial, antes pelo contrário, como mostra seu elogio do experimental em O Cangaceiro, de Lima Barreto. Este filme é conhecido como o exemplo mais bem sucedido de uma implantação malograda do cinema industrial em São Paulo com a produtora Vera Cruz. O Cangaceiro também se utiliza de sistemas representativos provenientes dos filmes de Hollywood. O experimento, para Bressane, está na reinvenção desses sistemas em contato com o assunto brasileiro. Como diz Bressane, aludindo ao conceito de antropofagia oswaldiana através do termo “canibal”:

Os elementos e procedimentos experimentais do Cangaceiro são inúmeros. É uma paródia acaboclada do western, devorando os principais clichês do gênero, saturando-os, e recriando-os à maneira canibal, de seu ponto de vista. São lugares-comuns recriados e recombinados abundantemente.

O filme, sendo uma incursão sistemática de transculturação (ou “antropofagia”) de um sistema estrangeiro em contato com assuntos brasileiros, nas mãos de um cineasta mais consciente e sensível para esta moldagem e transformação de um sistema em outro, adquire assim um caráter experimental.

NOTAS:

  1. Julio Bressane publicou o ensaio “O Experimental no Cinema Nacional” no livro Alguns, editado pela Imago em 1996. Estas notas acompanham os passos do ensaio para compreender mais o cinema experimental brasileiro e foram feitas para uma aula do curso Constelações do Cinema Brasileiro, ministrada pelo autor e comp. Agradeço à comp. e aos alunos companheiros pelas contribuições.^

caderno_de_txtr – por @scripttrix

 

 

 

 

caderno_de_txtr_I
21 x 29,7 cm
Nanquim sobre papel, colagem
2021

 

caderno_de_txtr_II
21 x 29,7 cm
Nanquim sobre papel, colagem
2021

“estudos rabiscados em sobreposição de grafias, materiais diversos. impressão. digital. folha de caderno. rasgado. rabisco. mancha. textura. transparência. sinais gráficos. sobreposição. papéis.
@scripttrix”

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carô. noctivaga, cyanogaster. nocturna solaris. pseudonyma.
trabalhos gráficos no amor. mixagens e edições // efeitos especiais. hipertexto. vídeo, tipografia e txt. escrita entrópica. filosofias vãs + mysterya.
imagens do mundo remixadas e impressões gráficas s/ superfícies no mundo.
namorando os mistérios desde 1993.

 

 

Emily Dickinson – traduções por Rodrigo Goulart

Emily Dickinson (1830 – 1886)
Trad. Rodrigo Goulart /@ex_nihil

Esses provaram o Horizonte —
(886)

Esses provaram o Horizonte —
Então desapareceram
Como Aves antes de obter
A Latitude.

Nossa Recordação Deles
Um prazer consumado,
Mas a nossa Previsão
Uma Dúvida — um Dado —


These tested Our Horizon —

(886)

These tested Our Horizon —
Then disappeared
As Birds before achieving
A Latitude.

Our Retrospection of Them
A fixed Delight,
But our Anticipation
A Dice — a Doubt —

 

Conte toda a Verdade — mas oblíqua —
(1263)

Conte toda a Verdade — mas oblíqua —
No Rodeio reside o êxito
Brilha ao nosso enfermo Delírio
Seu Vero supremo efeito

Como o Raio à Criança se explica
Docemente pro seu sossego
A Verdade deve alumbrar aos poucos
Ou o homem ficará cego —


Tell all the truth but tell it slant —

(1223)

Tell all the truth but tell it slant —
Success in Circuit lies
Too bright for our infirm Delight
The Truth’s superb surprise

As Lightning to the Children eased
With explanation kind
The Truth must dazzle gradually
Or every man be blind —

 

A Dor — vestígio Vazio —
(650)

A Dor — vestígio Vazio —
Lembrar-se não pudera
Quando começou — ou se houve
Um tempo em que não era —

Sem Futuro — além de si —
Seu Infinito interior —
Passado — sábio percebe
Novos Períodos — de Dor.


Pain — has an Element of Blank —

(650)

Pain — has an Element of Blank —
It cannot recollect
When it began — or if there were
A time when it was not —

It has no Future — but itself —
Its Infinite contain
Its Past — enlightened to perceive
New Periods — of Pain.

 

Referências
Dickinson, Emily. The Complete Poems of Emily Dickinson. 2 nd Ed. by
Johnson, T. H., & Little, Brown and Company (1960).

Sobre o exercício do prazer: a dialética ocidental do desejo – por João Carlos Pinho

O prazer como experienciamos se alimenta sempre de uma tensão entre presença e ausência do que é desejado, em uma dinâmica de complementaridade dessas sensações. Conseguir ter realizado o que desejamos nem sempre vai nos dar o prazer esperado porque a germinação do gozo está atrelada a essa agonia que sua ausência anterior nos concede como forma de sentir pesar o vazio da ausência – sentimento siamês ao desejo de presença – de modo que sem uma consolidação equilibrada desse sentimento de ausência o prazer da presença se atrofia. Essa premissa da vida já foi observada muitas vezes em diferentes culturas, se insere na filosofia Ocidental por Aristóteles formulando uma tese ainda mais essencial com a ideia de ‘potência’ (no grego: dynamis) como bem indica Agamben em seu texto “O que é o ato de criação?”:

Quem possui – ou tem o hábito de – uma potência pode coloca-la em ato ou não. A potência – esta é a tese genial de Aristóteles, mesmo que aparentemente óbvia – é definida essencialmente pela possibilidade do seu não exercício. O arquiteto é potente, porquanto pode não construir; a potência é uma suspensão do ato. (…) É assim que, na Metafísica, Aristóteles responde à tese dos megáricos, que afirmavam – aliás, não sem boas razões – que a potência só existe no ato. (Agamben, 2018, p. 63)

Agamben tece no breve ensaio de que modo a potência, que contém em si uma não-potência (potência-de-não), ocasiona o criar artístico. O que é interessante aqui é transferir essa lógica ao prazer, entendendo o prazer enquanto potência que tensiona o desejo e a realização do desejo, com a diferença clara de que o conceito aristotélico se reforça nas faculdades individuais do ser, enquanto o prazer, nesse caso, difundido enquanto uma realização de um desejo de algo que pode muitas vezes ser externo ao controle individual, pode estar condicionado a uma confluência de fatores do mundo. Peguemos alguns exemplos comuns de aplicação dessas forças: geralmente quando um indivíduo é rico, apesar do conforto que a posição dele lhe traz, ele geralmente precisa buscar prazer em coisas específicas que não são tão comuns a sua própria realidade. Apesar de ser fácil para esse indivíduo comprar aquele objeto óbvio de interesse geral, o desejo é afogado pela possibilidade de realização do desejo, que é praticamente automática, sem agonia. Há, portanto, um desequilíbrio entre eles, porque é tão fácil para ele conseguir aquilo que deseja que o prazer não se forma. Ele precisa ir atrás de algo que alimente seu desejo de modo que não seja tão fácil realizá-lo sempre.

De mesmo modo, podemos recorrer aos clichês do romantismo poético do século XIX, em que se encarna com veemência a figura do homem apaixonado e melancólico que se afunda no platonismo de uma paixão impossível (desejaria ele justamente por ser impossível?), para ver o desequilíbrio contrário. Nesse caso o desejo é muito maior que sua possibilidade de realização, muitas vezes nula. O desejo inclusive se alimenta dessa impossibilidade – quanto mais distante de realizá-lo mais se perde na paixão esse tipo de eu-lírico. Há exemplos reais, de quem, perdidamente apaixonado, ao conseguir de maneira surpreendente consolidar uma relação com o ser amado, logo se desiludiu com a experiência por conta do confronto entre seus sonhos, em que idealizava o outro em sua mente, com a realização daquela relação com o outro agora presente e fora do seu controle mental. Por essas razões a literatura romântica se afundou cada vez mais na agonia da distância, porque na busca das próprias idealizações sobre o mundo ou  mulheres, somente a imagem pura e distante sobra como autoilusão de que aquela idealidade é possível.

A frustração teria por figura a Presença (vejo o outro todo dia, mas isso não me satisfaz: o objeto está lá, na realidade, mas continua a fazer-me falta imaginariamente). Quando à castração, teria por figura a Intermitência (aceito deixar um pouco o outro “sem chorar”, assumo o luto da relação, sei esquecer). A Ausência é a figura da privação; desejo e preciso ao mesmo tempo. O desejo se abate sobre a carência: aí está o fato obsedante do sentimento amoroso.

RUSBROCK: (“O desejo aí está, ardente, eterno: mas Deus está acima dele, e os braços erguidos do Desejo não atingem nunca a plenitude adorada.” O discurso da Ausência é um texto de dois ideogramas: há os braços erguidos do Desejo, e há os braços estendidos da Carência. Oscilo, vacilo entre a imagem pálida dos braços erguidos e a imagem acolhedora e infantil dos braços estendidos.) (Barthes, 2018, pp. 62-63)

O artista romântico, o homem romântico, precisa iludir-se e acaba por tornar seu prazer, contraditoriamente, a própria ilusão carregada de dor, eliminando totalmente a possibilidade de um prazer real. E quando adentra numa relação com a mulher desejada se torna um neurótico, por imaginar excessivamente o desfalecimento daquela relação vindo de fatores externos quando ele mesmo o causa justamente por sua idealidade e possessão, como Bentinho em Dom Casmurro, de Machado de Assis, ou Swann no segundo livro de Em Busca do Tempo Perdido, obra monumental de Marcel Proust.

Os reflexos mais modernos dessa dinâmica são a criação dos ídolos, artistas consolidados pela difusão do seu trabalho pela indústria e pela aclamação do seu talento por parte do grande público, que têm sua vida particular tornada produto pela imprensa que vende a criação de uma imagem pessoal que deve corresponder às idealizações fomentadas no público. A imagem eternizada de Marylin Monroe é acompanhada de um sorriso mesmo que seja de conhecimento geral que sua vida tenha tido momentos muito difíceis, e que a própria necessidade criada de alimentar essa imagem corroborasse para tal, assim como a vida de inúmeras outras estrelas. No século XXI isso se torna ainda mais complicado com a tarefa da exposição saindo do monopólio da imprensa e sendo função atribuída aos próprios famosos que, através de seus smartphones, literalmente vendem a exposição de sua vida em redes sociais pelo dinheiro de patrocinadores (aqueles que não são famosos também reproduzem essa lógica por valores diferentes do monetário). Quando tal atriz ou ator famoso não corresponde aos desejos do público sobre sua vida pessoal, as críticas acontecem em tom de cobrança e desapontamento.

Weltschmerz é o termo alemão criado pelo escritor Jean Paul Richter para designar o sentimento experimentado por alguém que entende que a realidade física nunca poderá satisfazer as exigências da mente . Esse conceito aparentemente universal está condicionado por um contexto filosófico do Ocidente europeu que assume que o sujeito sempre terá naturalmente exigências a serem satisfeitas, podendo ser uma ideia obsoleta por perspectivas estranhas a essa condição. Faz parte do caminho taoísta justamente renunciar a essas exigências impossibilitadas pelo mundo, isso não significa somente abnegar ao desejo por sua não concretização, mas automaticamente igualar o desejoso e o realizado em tudo aquilo que faz parte do “fluxo natural” da própria vida, chegando ao ponto máximo enquanto unidade indistinta do Mundo, o Caminho Constante (Dào):

O que gera e cria,

Gera sem se apossar,

Age sem querer para si,

Cultiva sem dominar.

Chama-se Misteriosa Virtude.

(Tse, 2011, p. 70)

Há então, fora dos domínios do nosso pensamento cultural tendenciosamente destrutivo, possibilidades de prazer, por assim dizer, aquém do desejo. Se isso não é totalmente possível na nossa sociedade, existem exemplos de manifestação de desejo passivo, que buscam prazer fora do seu realizar, pela sua mera existência e pelo individuo se ver na possibilidade de contemplar aquele desejo. É um prazer raro que se encerra no observar e não gera (sempre) frustração por isso. Isso está manifestado por Jorge Ben na música “Oba, Lá Vem Ela”, cuja letra simples acaba seguindo uma linha de pensamento muito diferente das centenas de milhares de canções de amor e desejo produzidas ao longo do último século, inclusive pelo próprio Ben. “Oba, Lá Vem Ela” é um celebrar da observação, da  possibilidade de estar na presença de alguém ou algo que se deseja e isso já ser suficientemente bom para ativar uma sensação de vida vivida, de que naquele momento o Eu realiza-se no mundo por vislumbrar caminhos belos e não por precisar tentar trilhá-los.

Oba lá vem ela, estou de olho nela
Oba lá vem ela, estou de olho nela

Não me importo que ela não me olhe
Não diga nada e nem saiba que eu existo
Quem eu sou pois eu sei muito bem quem é ela
E fico contente só em ver ela passar

(…)

Não me importo que falem que pensem
Pois sem saber ela é minha alegria
Ela tem um perfume de uma flor que eu não sei o nome
Mas ela deve ter um nome bonito igual a ela

Oba lá vem ela estou de olho nela
Oba lá vem ela estou de olho nela

(Ben, 1970, grifos meus.)

Diferentemente da linha do romantismo, a economia das forças do desejo é saudável nesse caso porque, mesmo à distância, o prazer se fixa no olhar não possessivo e não no tato ou na visão ciosa com o qual normalmente se associa pela materialidade do sensível. A lógica do prazer na própria arte em sua forma de exibição é a mesma, não se pode possuir uma peça ou um espetáculo de dança, um show ou uma música, e, embora se tente cada vez mais durante esses eventos captar essa materialidade com filmagens oficiais ou gravações de celulares, aquele registro é somente um simulacro, uma cópia imperfeita da experiência original, que só é capaz de apresentar vestígios do corpo da obra, que pode sim dar deleite mas que não tem a mesma dimensão do espetáculo a qual se refere, até mesmo num sentido espacial – o filme é 2D (no máximo uma ilusão de 3D). Perdemos também o cheiro, a qualidade da imagem e outras qualidades que são inerentes à participação do observador no próprio ambiente da experiência, perdemos a ambiência. Um quadro se pode possuir materialmente e assim controlar o acesso ao objeto, porém também corre risco de perder força a dimensão empirista de ritual se banalizado o encontro, como um quadro que se vê todo dia na sala de casa cotidianamente, o espectador gradativamente pode abrandar o páthos pela ausência de cerimônia do encontro (o que aqui não quer dizer formalidade ou qualquer código social burguês de eventos artísticos).

Quando se trata da fruição tátil, encontramos o mesmo jogo de vontade alimentada e consumação. No sexo, o prazer não nasce de uma ininterrupta satisfação do desejo, mas de um jogo, por sua essência um jogo provocativo, em que se alimenta e cessa a satisfação do desejo a todo momento – micro-intervalos de prazer – para que ele aumente e assim o prazer seja maior quando gerado. O prazer é dado na medida em que se pode aumentar o desejo sobre ele e para isso ele precisa ser negado antes de ser concedido em maior potência. Repare isso no poema “Pote” da escritora fluminense Simone Brantes (grifos meus):

Você acha que sexo é isso:
três
ou quatro
posições
e executá-las?
Você quer
muito
muito mesmo
que eu goze?
Então vamos por partes –
não se vai com tanta sede ao pote –
Primeiro: fabricar a sede

Segundo: fabricar o pote
Terceiro: deixar que a água jorre

O corpo sente a potência no toque porque antes sente sua ausência e depois dele sente tem gravada sua memória quando este se dissipa, o desejo por ele aumenta assim, se ele é bom, então se o toque ocorre de novo ele pode gerar mais prazer ainda. O estímulo é, portanto, um fluxo de movimento alternado, uma dinâmica de dispersão do prazer pelo corpo ou por uma área específica dele que funciona por essa premissa. Isso vale não somente para o sexo em si, mas para uma massagem ou um cafuné, qualquer experiencia física afetiva. Além disso, em todos esses atos, quando se assume a posição de pessoa que toca, se indica de algum modo o desejo de ser tocado.

Assim, o tocar é, a princípio e para sempre, esse embalo, essa ondulação e esse atrito que a sucção repete, relançando e retomando o desejo de se sentir tocado e tocante, o desejo de se experimentar em contato com o fora. E até mesmo mais do que “em contato”, mas ele próprio o contato. Ou seja, também aberto ao exterior, aberto por todos os seus orifícios, minhas orelhas, meus olhos, minha boca, minhas narinas – e, claro, tanto esses canais de ingestão e digestão, quanto os de meus humores, de meus suores e de meus líquidos sexuais. Mas a pele, no entanto, esforça-se em estender em torno dessas aberturas, dessas entradas-e-saídas, um revestimento que ao mesmo tempo que os situa e os determina, desenvolve para si a capacidade de ser afetada e de desejar sê-lo. (Nancy, 2014, p. 20).

No contexto atual, da pandemia que começou em 2020 e se arrasta pelo ano de 2021, muitas pessoas acabaram tendo cortadas uma parte considerável das possibilidades de afeto vigentes em sua vida. Isso tudo aflorou uma carência desses afetos, uma sensibilidade imaginativa que substitui essa falta, uma perda de critérios emocionais para com as relações e também acentuou os contatos com (e não pela) a internet, como uma medida paliativa e sabidamente frustrante de contornar isso. O modo como as redes sociais são articuladas é feito para prender ali os usuários. O entretenimento nas redes é realizado em velocidades espantosas e se apresenta nas telas de maneira ininterrupta, fazendo  com que, por mais que quem acessa essas redes muitas vezes se sinta preso a elas e continue ali, não se sinta saciado pelo conteúdo que consome, porque esse, para além de projetar um mundo idealizado (algo que provavelmente é explicado mais a fundo em algum texto de Byung-Chul Han) não dá margem para respiro. Não permite o silêncio. A mente corre o risco de entrar em uma rotina de insaciabilidade que se estende para além das redes, mas para a vida de um modo geral, a cabeça assume um modus operandi que lida com o mundo através dos pressupostos dessa virtualidade ensurdecedora e não o contrário. A relação com o prazer se dá de uma forma cada vez mais pornográfica a essa altura do capitalismo tardio, a necessidade de alimenta-lo só aumenta de maneira desesperadora na medida em que ele é frustrado por uma hiperexposição ao que se deseja. Talvez nem a isso, porque essa saturação dos discursos, textos e imagens, das tendências e dos sentidos em geral pode até mesmo nublar de si mesmo aquilo que se deseja. O impulso mais primordial, que é buscar algo fora de si, se torna algo já não tão mais claro, se esvazia a ânsia e o individuo se torna refratário de si.

É claro que esse processo não é totalizante. Muitas pessoas estão chegando a um nível de desgaste com as redes sociais e não só isso: com as relações do mundo pautadas pelas dinâmicas dessa virtualidade, que acabam se afastando ou buscando outras formas de lidar com isso de um jeito mais pacato, o que a princípio parece ser também uma renúncia a um aspecto da vida pública (e nisso política), que se mostra cada vez mais incontornável, mas qualquer escolha que se faça exige abrir mão de algo. Nesse caso, se afastando desse mundo, o ganho que se pretende é uma outra temporalidade, o que aqui não significa somente um descanso no meio da era da informação, mas uma mudança quase ontológica de como estar no mundo, abrindo margem para que seus próprios desejos caminhem, não necessariamente para a uma angustiante realização anulativa em si mesma, mas para algo mais primordial: a possibilidade de se desenvolverem enquanto desejo antes de afluir (ou não) em um prazer. Para isso é preciso portanto, sem nunca negar como se sente, mesmo entendendo a influência das dinâmicas do mundo da qual fazemos parte nesse sentir, repensar o nosso desejo cotidiano em relação ao que chamamos de “conquistas”, aos outros que amamos e nos apaixonamos, ao que se quer acrescentar esteticamente e em amadurecimento para si mesmo, estando atentos aos princípios de que fomentam o modo como isso se desenvolve, ou seja, a tangibilidade dos nossos prazeres, verter nossas práticas cotidianas em espaços em que o silêncio e a absorção dos fatos da vida volte a se tornar possível.

 

BIBLIOGRAFIA

Alguma coisa do Byung-Chul Han que eu ainda não li, Byung-Chul Han, 20XX.
A Revolução Sexual, Wilhelm Reich, 1936.
Arquivida, Jean-Luc Nancy, 2014.
Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes, 1977.
“Oba, lá vem ela”, Jorge Ben, 1970.
O Fogo e o Relato – Ensaios sobre criação, escrita, arte e livros, Giorgio Agamben, 2014.
Quase todas as noites, Simone Brantes, 2016.
Tao Te Ching, Lao Zi entre 250 e 350 A. E. C.


João Carlos Pinho, também conhecido como Jão, é um ser humano carioca de vinte e três anos que torce para o Flamengo, come macarrão e escreve poesia. Talvez alguém esteja lendo isso agora (Patuá, 2021) é o seu primeiro livro de poemas (Talvez alguém esteja lendo isso agora, de João Carlos Pinho | editorapatua). Não confie nele 1.

NOTAS:
  1. Nota do editor: acho que é o mesmo cara que escreveu o texto sobre o Maradona, mas pode ser só impressão minha.^

Tédio – por Ian Uviedo

1.

Pela janela, vemos uma árvore. É uma figueira de copa robusta, e no final da tarde, sob a luz do que alguns chamam de “hora dourada”, as folhas parecem vibrar com um vermelho intenso. Mas agora chove. Chove e tudo, tanto a árvore quanto a calçada que lhe suporta e a rua residencial onde fica, tudo parece coberto por um filtro preto e branco, como num filme antigo. Do lado de dentro, vemos uma sala habitada por duas pessoas. Antes de descrevê-las, porém, vou falar da sala. O centro do assoalho, que é de madeira, está coberto por um tapete com motivos que lembram algo de Monet. Na sala existem duas poltronas de couro, onde as pessoas estão sentadas. O couro das duas está desgastado nas pernas e nos braços, como se um gato tivesse afiado suas garras ali. Aquele gato, que se aninha no colo de uma das pessoas e tem manchas brancas e marrons no pêlo. Há prateleiras pregadas nas paredes, e além de livros elas ostentam objetos indefinidos, mas que podem ser caixinhas, cinzeiros, estatuetas ou brinquedos de madeira. Há livros por toda a parte, na verdade. Há livros entrincheirados no chão, livros empilhados ao lado das poltronas e livros cobrindo toda a extensão de uma mesa de centro feita de mogno com um tampo de vidro. Toda a extensão é inexato: existe uma brecha, onde as pessoas posicionaram uma bandeja com um bule de chá e três xícaras, como se esperassem por alguém. Os livros são de todos os tamanhos, desde livrinhos de bolso que vemos em bancas de jornal até livros de arte com gravuras próximas ao tamanho original. Agora vou descrever, ou tentar descrever, as pessoas. Uma das pessoas, que está sentada na poltrona mais próxima da janela, é uma mulher. Vou chamá-la de Rebeca. Rebeca tem cabelos pretos e curtos. Vemos suas orelhas sem brincos. Contra a luz e de perfil, percebemos certo traço romano que lhe delineia a testa e o nariz. O centro do seu nariz tem uma saliência mínima, porque uma vez caiu da bicicleta e o quebrou. Mas isso faz muito tempo. Ela usa, nesse momento, em que chove e o gato dorme, uma camiseta branca de tecido fino estampada com um dos únicos retratos de Franz Kafka e uma calça preta de veludo cotelê. Está descalça. Fuma um cigarro de filtro branco e beberica de uma xícara japonesa o chá de amora. Não tem mais de 28 anos. E está entediada. A outra pessoa, que está sentada na poltrona mais próxima da porta — embora a sala seja pequena e a distância entre as duas poltronas não seja grande —, segura o gato no colo e é um homem. Vou chamá-lo de João. João tem cabelos castanhos e selvagens que cobrem suas orelhas, mas não são muito compridos. Seus traços são definitivamente latinos, mas a palidez e o corte de cabelo o traem, fazendo-o parecer, por exemplo, francês. Usa uma camisa social de mangas curtas branca, calças jeans claras e botas de camurça sem cadarço. Fuma um cigarro de tabaco orgânico que enrolou. Seus olhos são escuros, muito escuros. Não tem mais de 23 anos. Ouve o ruído da chuva e está entediado.

2.

Tento escrever sobre esses personagens. Tento compor o clima, a sala e os personagens como se pintasse um quadro. Tudo aos poucos. Procuro me relacionar com eles em gestos mansos. De alguma forma, eles, mas sobretudo Rebeca, são personagens que busco há um tempo, então se os tenho agora sentados numa sala, sóbrios e entediados, é melhor agir com prudência. Não se aproxima tanto do que Salinger fez com Seymour, escrevendo um livro inteiro apenas com as descrições físicas de seu personagem, partindo delas para contar suas histórias, e sua grande história, e nos levar por seus ensaios, mas ao descrever meus personagens dessa maneira, penso que estou conduzindo uma narrativa invisível, como se nesses detalhes residissem relações que apenas uma leitura atenta pode revelar. Isso soa literário. Mas a verdade é que João e Rebeca ainda são personagens vagos, de personalidades insustentáveis, e eu mesmo não sei muito a respeito deles. Mais do que, de um texto para o outro, eu sempre trabalhar com personagens semelhantes, meus personagens são todos parecidos entre si. Isso é complexo, mas não necessariamente problemático. É uma questão de contrastes, suponho, de dinâmica literária. Por outro lado, se tenho personagens parecidos, estou dizendo justamente que essa falta de contrastes sociais, essa organização civilizatória que nos empurra dia após dia aos nossos semelhantes, é um processo entediante, que nos priva das múltiplas possibilidades advindas da interação humana. Mas não sei se acredito nisso. Não ando muito animado com as múltiplas possibilidades advindas da interação humana. Agora são 18h30 de uma quinta-feira e está quente, depois de um mês que foi o mais frio em São Paulo nos últimos cem anos. J. teve insônia à noite e agora dorme. Estou distraído, e preciso voltar para a história, uma história sobre o tédio. Estou pensando no trabalho que me espera amanhã. Hoje não fiz quase nada, e passei o dia com uma sensação estranha de desgarramento. No entanto, varri o apartamento e passei pano no chão da cozinha e do banheiro. Isso é positivo. Não, não vou transformar esse texto numa continuação do diário que interrompi. Vou voltar aos meus personagens sem história. Sei que eles são bonitos. E que estão entediados.

3.

Você já ouviu falar do Natsume Soseki? — diz João, deixando o tabaco cair num cinzeiro de ferro que está sobre o braço da poltrona.

Ele escreveu Eu Sou um Gato, não foi? — diz Rebeca, depois de um silêncio longo.

Sim. — João tira do bolso traseiro da calça sua carteira, de onde retira uma nota. — De 1984 a 2004, o rosto dele estampava a nota de 1000 ienes. Meu tio esteve no Japão e me trouxe isso como um souvenir, digamos, mas nem fazia ideia quem era o escritor.

Rebeca alcança a nota que João lhe estende, e depois de examiná-la por um instante, inclusive contra a luz, como se desejasse conferir que é verdadeira, a devolve.

Foi por causa do gato? — diz, tirando mais um cigarro do maço.

O que? — faz João, guardando a nota na carteira e a carteira no bolso.

Que você lembrou. Quer dizer, pensou no Soseki. Foi por causa do gato?

João a encara com a expressão de quem não entende. Então acaricia o felino em seu colo.

Não. Acho que não — sussurra — só pensei nele. No nome dele. Soseki é um pseudônimo. O sobrenome verdadeiro era Kinnosuke, ou algo assim. Soseki é “incômodo” em japonês.

Então deve ter sido por causa do chá — diz Rebeca, erguendo o copinho de barro.

O que?

Que você lembrou. Esse bule e essas xícaras de estilo oriental. Te fizeram pensar no japão e, ato contínuo, em Soseki, por causa da palavra. Enfim, essas coisas que fazemos sem perceber.

Talvez. É possível — diz João, se espreguiçando. O gato acorda, imita o movimento de se espreguiçar e pula do colo para o chão. Por um instante circula, se esfrega nas pernas da mesa de centro, depois para quieto e boceja. Encara-os. — A verdade é que não pensei só no nome, mas num conceito de tradução que Soseki cunhou no começo do século XX.

Rebeca olha pela janela e faz um movimento mínimo de cabeça, que pode indicar que está atenta como pode significar que seu tédio já adentrou na região mais pantanosa do vazio. Mesmo assim, João prossegue:

Soseki achava, em suas traduções do inglês, que “eu te amo” era direto demais, seco demais. Então ele criou uma expressão mais poética, que é “a lua hoje está bonita”. Se uma pessoa diz isso no japão, conta como uma declaração de amor. E se a outra corresponde dizendo, digamos, “a lua está mesmo bonita”, entende-se que é recíproco.

Rebeca empurra a fumaça do cigarro e faz uma expressão grave.

Como alguém pode dizer que a lua não está bonita? Parece ter uma falha aí. — diz.

Bem — suspira João —, tem dias que não dá pra ver a lua.

De fato— faz Rebeca — Agora mesmo eu não estou vendo. Com essa chuva toda.

No entanto — prossegue João —, tem dias que dá pra ver a lua no meio da tarde. Principalmente no inverno.

Sempre me perguntei: quando vemos a lua de dia, isso significa que é lua nova no japão?

Eu realmente não sei.

Se for o caso, quer dizer então que, quando estamos aqui, podendo dizer que amamos uns aos outros em plena luz solar, os japoneses, que inventaram isso, não podem amar ninguém.

Eles podem amar. Só não podem dizer que amam. A questão aqui é que poder contemplar com alguém uma terceira coisa, mesmo que seja a lua, e compartilhar a visão dessa beleza, é o suficiente para o amor.

Pelo que eu me lembro — diz Rebeca, colocando os pés na poltrona, encolhendo-se —, em japonês as palavras “gostar” e “lua” são bem parecidas. Lua é “tsuki” e gostar é “suki”. Essa semelhança aparece com frequência em vários filmes japoneses. Assim como o “chorar” e o “chover” na França. “Pleurer” e “pleuvoir”.

E chove.

4.

Esse diálogo, aviso logo, é o núcleo do texto, que fica a cada instante mais misterioso para mim. Só sei que todo o resto que virá será a carne da fruta que envolve esta semente. Escrever tem muito disso: coletar várias informações e histórias que me encantam e fascinam, e aos poucos ir introduzindo-as num contexto que as suporte de forma isolada. Um contexto mais controlado que o caos dos dias e as horas incontáveis do passado e do porvir, que são o que moldam tudo. Mas Rebeca e João me são misteriosos. Como podem saber tanto de cultura japonesa? Como podem pronunciar com tanta desenvoltura palavras em japonês e em francês? E quem é esse tio de João, que viaja para o Japão e traz notas de 1000 ienes de presente? Por isso acho os contos difíceis. Preciso preparar a arena antes, preciso explicar todo o universo em que o texto opera com uma profusão de detalhes e a sobriedade de quem descreve uma fotografia para uma pessoa de olhos fechados. O que sabe, até agora, ou melhor, o que acha o leitor, até agora, de Rebeca e João? Na minha visão, João se comporta como um típico jovem que acredita a um só tempo sentir e saber demais as coisas. É uma pessoa doce, para todos os efeitos, mas também presunçosa e um pouco ingênua. O que ele estava tentando dizer? Que ama Rebeca? Talvez. Ela, por sua vez, parece ter um ar cansado, como se um dia houvesse apostado na poesia e na ternura, mas agora enxerga a estas manifestações de João com sarcasmo e arrogância, procurando por falhas no raciocínio que resultem num chiste amargo. Não é como se tivesse abandonado a ternura, a poesia ou seja lá o que for, e sim as refinado de forma pessoal, as aprofundado segundo sua própria experiência. As imagens da lua e da chuva soam comuns demais, fáceis demais para ela. Rebeca e João são pessoas comuns, portanto, pessoas complexas, com dimensões múltiplas e uma variação flutuante de disposição de espírito. Amanhã posso escrever um texto em que os papéis estejam invertidos, por exemplo, ou inexistentes, dando lugar a outros sentimentos, como a ira ou a tristeza. Esta quebra entre autor/personagem, embora não seja a ideia mais original do mundo, praticada antes por autores como o já citado J.D Salinger e Alejandro Zambra, é uma ideia que tenho almejado há um tempo, e agora que eu a pratico, sinto que não corresponde em nada com o que eu havia idealizado. Na minha projeção, o texto todo cantava num tom baixo, melancólico, e minha maior melancolia nesse momento é não alcançar esta nota. Não sei o que me falta. Experiência, talvez. Calma, quem sabe. Mas esse texto não é sobre mim, é sobre João e Rebeca. Existe uma questão vital em aberto, que são as três xícaras. A terceira xícara — a vejo limpa — indica que existe alguém para chegar. Como se fossem personagens beckettianos, João e Rebeca esperam por algo, algo que é sempre maior do que um simples alguém. Agem nesse momento como personagens esquecidos pelo autor, que lhes providenciou uma chuva que impede qualquer movimento escandaloso. Mas o que esperam? Quem esperam?

5.

Rebeca levanta. Agora está em pé ao lado da janela, olhando para fora. Chove. João observa o desenho que o tecido da camiseta dela faz ao tocar os ossos de seus ombros. Em uma das pilhas de livros, há um jornal aberto. Rebeca o alcança. É de ontem.

Viu isso? — faz.

O que?

Rebeca começa a ler:

— “Pescadores encontram granada de 1915 fabricada na Inglaterra às margens de rio no interior de São Paulo.”

Meu Deus — diz João.

— “Uma granada de 1915 e que foi fabricada na Inglaterra foi encontrada por pescadores às margens do Rio Turvo, em Cardoso, na quarta-feira. De acordo com as informações da Polícia Militar, os pescadores encontraram o artefato ao limpar o local para evitar queimadas. À televisão, Marco Spada afirmou que achou que era uma pedra.” Daí tem uma citação dele: “Estava por volta das 6h30 limpando o lote para evitar queimadas. Me deparei com o objeto e, quando bati a enxada, achei que era uma pedra. Rastelando, percebi que era uma granada, imediatamente me afastei dela” — Rebeca abaixa o jornal, cruza os braços e se encosta na janela. — Me diz se escrever é ou não é a coisa mais fácil do mundo? Como é que uma granada inglesa de 1915 acaba enterrada na beira de um rio no interior do estado? Parece um exercício tchekhoviano.

Não sei se escrever é a coisa mais fácil do mundo. Mas dar oficinas de escrita, sim, sem dúvidas. — diz João, rindo.

6.

Tempo. Preciso de tempo. Mas estou atrasado, muito atrasado, como diz o coelho. Fiz um chá de amora para me aproximar destes personagens. Depois saí para a rua. Começava a anoitecer. Não há maneira da história avançar porque não há história alguma, apenas uma situação potencialmente infinita, não por isso menos exaustiva, suspensa no tempo. Caminho pelas ruas de São Paulo, e penso no meu próximo romance, que agora está nas mãos de um novo editor. Cada romance meu é a síntese da soma de coisas que absorvo num período específico. Observo o comportamento das pessoas e frequentemente me encanto por lugares. Bares, igrejas, praças ou casas que visito. De algum modo, é um impulso de apropriação. Quando entro num desses lugares, digo: quero fazer algo com isso. Busco então emular uma fragrância que espelhe a essência daquele espaço, representada nas sensações que experimentei quando o vi pela primeira vez. Como em um sonho, tudo se mistura, e cada um dos lugares onde se passam as minhas histórias é sobreposição e arranjo de lugares diversos. A ação do próximo livro, por exemplo, está focada no centro de São Paulo, e fico satisfeito em pensar que, em pontos tão fugazes quanto os que escolhi para agir, inscrevi minha história, ergui um pequeno monumento pessoal às minhas obsessões. Caminho por estas ruas com os olhos atentos, sempre que posso. Às vezes, em dias como hoje, tenho pressa. Agora escurece e começa a garoar. Como sempre ocorre em meus textos. Dobro numerosas esquinas. Enveredo por uma rua ladeada por árvores. Os galhos projetam sombras sobre as casas, criando uma atmosfera rajada, e penso em J., na nossa relação, em seu corpo, seus gestos. Não consigo escrever objetivamente, descrever ações, me distraio muito facilmente. Encontro meu lugar em divagações e apostas, num limiar entre o ensaio e a crônica. Mas o fato é que estou nessa rua. Em frente à casa. O fato é que toco a campainha. E espero. Ouço as vozes e os passos que se aproximam. Ela abre a porta. E eles me encaram, definitivamente.

7.

Finalmente — diz Rebeca.

SOPA DE PATO #1

 

Essa é uma tentativa de uma coluna colaborativa de indicações variadas. Algumas coisas que tenhamos ouvido, lido, assistido ou sei lá o que nos últimos tempos. Uma sopa meio aleatória, mas com sorte você vai sair com alguma algo interessante pra caçar pela internet depois. Dessa vez fomos basicamente Pedro Ávila, Lucas Almeida, Patrícia Pinheiro e João Carlos Pinho.


Chapter one: Latin America (1973), de Gato Barbieri

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Discípulo de Coltrane e um dos saxofonistas mais importantes e bem sucedidos dos anos 1970, o argentino Gato Barbieri esteve lá no início do free jazz, tendo tocando em álbuns antológicos como Complete Communion (1965), de Don Cherry, e Escalator over the Hill (1971), de Carla Bley, só pra citar dois. Segundo o crítico estadunidense Robert Christgau, Gato Barbieri foi o único jazzista além de Miles Davis a conseguir traduzir o jazz de vanguarda em algo quase acessível ao grande público sem soar desonesto. E é bem isso que se ouve em Chapter one: Latin America, talvez sua obra-prima. Uma celebração aventurosa da música latino-americana, contando com músicos e instrumentos de todo o canto (Argentina, Peru, Brasil, Bolívia e por aí vai) mas com um embalo irresistível. Uma das faixas do álbum, “India” é uma versão linda de uma música escrita por José Ansunción Flores, Manuel O. Guerrero e José Fortuna, que foi interpretada por Gal Costa, dando nome ao excelente Índia, curiosamente também de 1973. Chapter one, como o título indica, o primeiro de uma série. Vale a pena ir atrás dos outros três álbuns, ou capítulos, respectivamente: Hasta Siempre (1974), Viva Emiliano Zapata (1974) e Alive in New York (1975). Os dois últimos são um pouco menos audaciosos, especialmente Viva Emiliano Zapata (o que faz do título um pouco irônico), mas nenhum perde a força celebratória dos encontros entre esses diferentes ritmos e instrumentos, fazendo jus à toda potência do caldo cultural da América Latina.

Bronca Buenos Aires (1971), de José López Ruiz

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Esse álbum narra, tanto literalmente, com palavras escritas e recitadas por José Tcherkaski no início de cada música, quanto musicalmente, a experiência de se viver num país em que o silêncio é a ordem, sendo proibida qualquer forma de manifestação ou expressão. Realizado durante um dos períodos mais assombrosos da Argentina, o regime militar de 1966 a 1973, Bronca Buenos Aires ficou indisponível por muitos anos, tendo sido proibido na época, mas dá pra encontrar no spotify uma reedição de 2013 que conta com versões traduzidas dos monólogos para inglês e francês, mas sem alterar a gravação das músicas em si. O tipo de disco esquecido que a gente tem que lembrar de ouvir de vez em quando.

Só quem viu o relâmpago à sua direita sabe (2020), de Kaatayra

Minha fonte oficial de música boa contemporânea é o Volume Morto, mas de vez em quando dou uma passada nas listas do rateyourmusic. Nessas descobri esse disco curioso do ano passado, que mistura black metal com samba e outras referências musicais brasileiras. Talvez se beneficiasse de uma produção um pouco melhor, em que desse pra escutar todos os detalhes claramente, mas o resultado final não é ruim, a mistura de estilos funciona impressionantemente bem a maior parte do tempo. Pelo que dá pra extrair do bandcamp, o projeto é praticamente todo de Caio Lemos, que toca todos os instrumentos e faz a maior parte dos vocais. É o tipo de coisa que, mesmo com defeitos vale a pena conferir. Eu devo tá na pista errada, mas me faz lembrar de Nação Zumbi misturando metal e maracatu, apesar de ser uma mistura mais simbiótica talvez, mais superposição do que justaposição. Trevoso mas acústico, é uma boa trilha sonora pro pesadelo que o Brasil vive hoje. Dá pra escutar de graça por aqui.

Aron Feldman

Em 1988 Jairo Ferreira sentenciou: Aron Feldman é um talento que provavelmente será redescoberto entre os vivos muito aparentemente mortos deste fim de década. Infelizmente, Aron Feldman (1919 – 1993)  continua hoje um ilustre desconhecido. Juntei alguns textos e entrevistas sobre/com Aron Feldman, além de alguns poucos filmes (4 de um total de aproximadamente 23, entre curtas, médias e longas em variadas bitolas e formatos) que podem ser encontrados na internet. Deste rápido levantamento chama especial atenção alguns registros sobre sua estada em Belo Horizonte, como o vídeo de Fábio Carvalho, O Mundo de Aron Feldman, e o videoclipe Cu de Comunista, da banda Divergência Socialista – em que atua. Enfim, alguns links, filmes, textos, dicas. Que o talento de Aron Feldman – também como fotógrafo – seja redescoberto nessa década tão incerta que ainda se inicia. Filmes , Textos: Catálogo Aron; De dentro de um cemitério – Paulo Emílio; jairo ferreira 1988; O Mundo de Aron Feldman por Fábio Carvalho.e mais aqui, aqui aqui aqui e aqui. Recentemente Cláudio Feldman – filho e colaborador de Aron – lançou o livro Aron Feldman: Cinema Nas Veias.

Level Five (1997), de Chris Marker

Chris Marker - Level Five (Trailer) | Dinca

O filme Level Five (1997) do Chris Marker tá no mubi.com e é uma piração interessante. Em parte é um documentário sobre a batalha de Okinawa, o último conflito da Segunda Guerra, que serviu de prelúdio pro lançamento das bombas atômicas no Japão. Mas também é uma ficção científica sobre essa mulher que está tentando terminar o videogame inspirado na batalha de Okinawa, obra inacabada de seu falecido marido. O filme faz uma brincadeira intercalando entrevistados que de fato viveram a Segunda Guerra e a personagem fictícia que fica rememorando sobre seu marido, discutindo com a câmera num formato videolog sobre a vida e suas conversas na internet. É tudo uma grande reflexão melancólica e cabeçuda sobre os traumas do século XX, tanto num nível macro como micro, assim como sobre as confusões entre realidade, ficção, memória e sonho, engatilhadas pelo existencialismo cibernético de fim de século.

Ernie Pike, de Oesterheld e Pratt

Ernie Pike - La sentinella by Hugo Pratt on artnet

Não tem necessariamente a ver com o filme de Marker, mas em Level Five é citado que o jornalista e correspondente de guerra Ernie Pyle, que ficou conhecido por seus relatos sobre soldados e momentos ordinários da guerra, morreu na batalha de Okinawa. Bem, inspirado nessas histórias, o argentino Héctor Oesterheld criou uma série de quadrinhos em 1957, Ernie Pike, primeiramente desenhada pelo gigante Hugo Pratt, mais famoso por sua obra-prima Corto Maltese. Ano passado, Ernie Pike saiu pela primeira vez no Brasil, pela editora Figura. É uma coleção de contos breves que, escolhendo tratar de figuras “irrelevantes” da Segunda Guerra, tece diversas reflexões sobre os conflitos humanos e como pessoas comuns lidam com os terrores da Guerra. Se você tiver chance de ler, leia, é excelente. Oesterheld foi um opositor do regime militar argentino, tendo se unido ao grupo guerrilheiro Montoneros. Ao longo dos anos 1970, Oesterheld e grande parte de seus filhos foram sequestrados pelas forças armadas. O corpo de Oesterheld nunca foi encontrado. Alguns quadrinhos dele vêm sendo lançados no Brasil nos últimos tempos, como a ficção científica O Eternauta, conhecida por sua crítica política, mas principalmente as obras que fez junto de Alberto Breccia, como a borgiana Mort Cinder, que trata um misterioso homem que nunca morre.

O cinema de Kelly Reichardt

Kelly Reichardt's 'Meek's Cutoff': The Camera's ...

Kelly Reichardt é uma diretora norte-americana que investiga em seus filmes a formação da identidade estadunidense, através das perspectivas de indivíduos marginalizados dentro da histórica canônica dos Estados Unidos da América. Seus filmes trabalham a jornada cotidiana desses outsiders, transmitindo um discurso forte sobre as violências e contradições de seu país sem precisar trazer de modo enfático e explícito as mesmas. Com roteiros simples e com pouca ação, para os espectadores que se permitam embarcar no realismo banal de suas construções, sua obra produz um efeito generalizado de ambiência, que os emerge em uma poética do silêncio altamente reflexiva.

Filmes recomendados: O Atalho (2010), Wendy & Lucy (2008) First Cow (2019), Certain Women (2016)

 

Os corpos e bonecos de Osamu Tezuka (parte 1) – por Pedro Ávila

Detalhe do curta de 12 segundos “Auto retrato”, no qual a face de Osamu Tezuka se torna uma máquina caça-níqueis, trocando de rostos sem parar.

Os mangás e animes de Osamu Tezuka (1928-1989) tendem a se encaixar em gêneros fantásticos, nos quais se não há magia em si a ciência é extrapolada a sua condição mais caricata. Os mundos que o autor criava eram regidos pela lógica flexível da brincadeira, sendo muitas vezes habitados por seres como robôs e andróides, que podemos associar a bonecos. Sua criação mais emblemática é provavelmente a ficção científica Tetsuwan Atom (1952-1968), conhecida também como Astroboy fora do Japão, que conta a história de Atom, um menino robô super poderoso. Atom foi criado pelo Dr. Tenma para substituir Tobio, seu filho que havia falecido num acidente automobilístico. Sendo andróide feito à imagem e semelhança de Tobio, Atom é um duplo. Uma das questões recorrentes na obra de Tezuka será, portanto, o que define um ser humano e quais as diferenças entre uma pessoa e um ser artificial. Além de andróides, sua obra será povoada também por outros seres de identidade ambígua, sendo recorrente o tema da encenação.

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Capa do primeiro volume de Tetsuwan Atom, o Astroboy.

O desenho de Tezuka, que possui linhas simples mas expressivas, e seu design de personagens baseado em formas geométricas básicas, ajudou a configurar o “estilo mangá” genérico (olhos grandes, traços arredondados, expressões exageradas). Desse estilo surgiram personagens icônicos, passíveis de serem reconhecidos com imensa facilidade, assim como reproduzidos em outras mídias, ou transformados em brinquedos. Tezuka parte de uma noção artística bem moderna: a síntese, o menor número possível de traços para a maior expressividade.

Ele foi um desses quadrinistas que utilizam da obviedade da imagem para chegar direto ao ponto com relação aos temas, um desses artistas que jogam diretamente com a superfície. Seu estilo cartunesco tende a apresentar uma economia de traços e hachuras, influenciado pelos desenhos animados norte-americanos estilo Disney e Fleischer, assim como pelos designs construtivistas de autores de mangá do período pré-guerra 1.  Como nos desenhos animados da primeira metade do século XX, as personagens de Tezuka possuem um aspecto “borrachudo”, despreocupado com o “realismo” ou “naturalismo”.

Detalhe de uma página de Metropolis (1949), na qual é possível observar a influÊncia dos desenhos animados borrachudos.

Essas particularidades de seu estilo facilitavam com que ele e seus assistentes desenhassem múltiplas séries de quadrinhos simultaneamente, acelerando também a produção de suas adaptações para desenho animado. Além disso, os olhos grandes e expressões exageradas eram uma forma conveniente de explicitar as emoções das personagens, sem necessitar a animação completa de seus movimentos corporais.

Por conta disso, já compararam muito Tezuka com Walt Disney, como se o mangaka 2 fosse uma espécie de “Disney japonês” 3. Mas como Rogério de Campos afirma no prefácio da edição brasileira de Ayako (1972-1973) 4:

“[…] as diferenças entre um e outro saltam à vista. […] enquanto Tezuka era um desenhista impressionantemente prolífero e criativo, Disney mal desenhava, nem mesmo sua famosa assinatura é criação dele. Disney foi um empresário. Tezuka, mais do que tudo, foi um artista. […] é bem sabido que, quando o macarthismo invadiu Hollywood, Disney foi correndo se oferecer como dedo-duro na caça aos comunistas. Tezuka, quando o movimento da censura aos quadrinhos ficou mais forte [no Japão dos anos 1960], saiu em defesa dos gekiga 5. Falou publicamente contra a censura e pelo direito dos quadrinhos tratarem de todos os temas. Foi além: em 1967, criou uma revista, a COM, na qual os jovens e veteranos mangaka pudessem fazer suas experimentações e tratar, com total liberdade, de todos os tipos de temas, inclusive sexo 6.” (p. 7 do prefácio da edição brasileira de Ayako, de 2018.)

Contudo, as obras de ambos estão intimamente relacionadas ao mundo industrial da reprodutibilidade técnica. Como Disney, Tezuka fez muito dinheiro com as imagens de suas personagens, tanto em quadrinhos e desenhos animados quanto em bonecos e estampas de qualquer produto que fosse. Entretanto, acredito que os propósitos de Tezuka eram também de criar narrativas que pudessem em si refletir sobre sua própria reprodutibilidade técnica. Se Atom é um robô é porque interessava a ele revelar a artificialidade de suas histórias, de maneira a ponderar o que significa ser humano numa era repleta de duplos e reproduções.

O mundo moderno, industrial e fissurado pela velocidade, é a razão de Atom existir. Tanto por ser fruto do imaginário de um Japão pós-guerra, que experienciou os maiores terrores produzidos industrialmente, máquinas de guerra e bombas nucleares, como diegeticamente. Atom só pôde surgir a partir da dor de um pai que teve seu filho tirado do mundo por  uma colisão entre máquinas tecnológicas. Dessa dor emerge um ser-coisa, ser-máquina, fusão de Tobio e os carros que causaram sua morte.

Logo no início, Atom é abandonado por seu criador, para o qual a perfeita semelhança do robô a Tobio apenas intensifica a ausência de seu filho morto. Mas seria Atom menos humano que Tobio? Essa questão é complexa, já que o andróide parece ter sentimentos, além de lutar pelo bem da vida. Apesar de, a rigor, não estar vivo nem ser humano, ele tende a agir de maneiras muito mais “humanas” do que algumas pessoas no mangá, sempre buscando a solução mais diplomática para os problemas.

Tezuka na década de 1960, no estúdio de produção de animações da Mushi Production.

Dessa discrepância entre o humano e objeto, um caso interessante está no mangá Dororo (1967-68) 7, que conta a história de Hyakkimaru, um garoto que ao nascer constituia apenas de um tronco desmembrado e uma cabeça sem olhos, nariz, ouvidos ou boca. Antes de nascer Hyakkimaru teve 48 de seus órgãos sacrificados por seu próprio pai a um grupo de youkai 8 em troca de poder e riqueza. Após ser salvo por sua mãe e colocado numa cesta num rio, o menino é encontrado por um curandeiro que passa a criá-lo como seu filho. Para que Hyakkimaru possa viver como uma pessoa comum, seu pai adotivo constrói membros e órgãos de madeira, colocando lâminas dentro de seus braços para que ele possa se defender e surpreender os inimigos. Sendo constantemente perseguido por assombrações, o garoto precisa cortar seu laço com o pai adotivo (outro desmembramento), resolvendo percorrer o mundo em busca de reconstituir seu corpo. Para isso, ele deve matar todos os youkai que selaram o pacto com seu pai biológico. Em suas aventuras, ele é acompanhado por Dororo, o ladrãozinho que dá nome ao título.

Detalhe de uma página de Dororo. Hyakiimaru bebê e seu pai adotivo criando membros de porcelena e madeira.
Hyakkimaru (à esquerda) e Dororo (à direita), em ilustração de 1967 para a revista Shonen Sunday.

Ao longo do mangá, Hyakkimaru vai trocando seus órgãos falsos pelos orgânicos, o que posiciona seu corpo no centro da narrativa, o que nos atenta para o próprio artifício do desenho de Tezuka. Diferente de sua versão animada de 2019, no mangá de Dororo, Hyakkimaru aparenta ser como qualquer outro humano: por meio de suas habilidades psíquicas, consegue ver, ouvir e se comunicar apesar de seus ouvidos, olhos e bocas serem falsos, o tornando indistinguível às demais personagens. Isso ajuda a causar maior espanto quando Hyakkimaru desatarracha um de seus braços falsos, revelando a lâmina escondida. Mesmo depois de obter seus membros reais, não parece haver qualquer estranhamento por parte dos demais personagens, sendo para eles carne e osso indistinguíveis de madeira e porcelana. Afinal de contas, o mangá nos permite perceber que Hyakkimaru não é feito de nada que não tinta e papel: ele é uma imagem, um boneco do autor Tezuka, como qualquer outra personagem da história.

Hyakkimaru desatarrachando um de seus braços e revelando a lâmina escondida.

Já que a maior parte de seus membros são artificiais, assim como seus sentidos, Hyakkimaru constantemente tem que performar ser um humano comum. Seu trajeto ao longo do mangá é, portanto, se tornar de fato quem ele antes performava ser. Contudo, o fato de não haver uma distinção óbvia entre o artificial e o orgânico suscita a questão: até que ponto Hyakkimaru está de fato recuperando seu corpo verdadeiro? Se enquanto performava ter um corpo inteiramente orgânico ele já era percebido enquanto um humano comum, que diferença faz a materialidade de seu corpo? Ele era menos humano antes? Ou até: não seria a falta aquilo que o tornava ele próprio? Voltamos ao mesmo dilema de Atom: o que define a humanidade: nossos corpos ou nossas ações?

A encenação envolve também os diversos youkai que Hyakkimaru e Dororo combatem ao longo da série. Esses inimigos quase sempre ocultam sua verdadeira forma, assumindo a aparência de pessoas, animais ou objetos. A maneira com a qual Hyakkimaru derrota os youkai separa os pedaços de seus corpos, por vezes os fatiando ao meio. A divisão do corpo das personagens pode também ser associada à replicação e à reprodutibilidade técnica.

Página de Dororo, na qual vemos Hyakkimaru partir um youkai em forma de cachorro ao meio.

Já que estamos falando de encenações, vamos lembrar de uma antiga prática entre os quadrinistas japoneses: o star system, inspirado no sistema Hollywoodiano, em que um mesmo ator performa papéis diferentes em diferentes produções  de um dado diretor ou gênero cinematográfico. Dessa forma, vários mangakas reutilizavam um mesmo design para múltiplos personagens em mangás diferentes, como se fossem atores (aqui você pode ver alguns dos “atores” principais de Osamu Tezuka e seus diferentes papéis). Assim, ocorre uma disjunção ao encontrarmos numa obra uma personagem cujo design reconhecemos de outra, na qual desempenha o “papel” de uma personagem completamente diferente 9). Mais uma vez somos obrigados a encarar a artificialidade da narrativa e desenhos. Algumas personagens podem também se encontrar em dilemas performativos, se disfarçando, ou fingindo ser alguém ou algo que inicialmente não eram. Nesse sentido, Tezuka se assemelha a uma criança usando um número limitado de brinquedos como personagens diferentes para suas diversas brincadeiras. São, então, as marionetes que ele manipula para contar histórias. Isso para não falar nas constantes “quebras de quarta parede”, nas quais as personagens demonstram ter plena consciência de estar num mangá, chegando a interagir com os quadros, balões de fala e o próprio autor. Demonstrando através da comicidade um gosto lúdico do autor, que quer brincar e experimentar com os elementos formais do quadrinho.

Uma das estrelas de Tezuka, um mesmo “ator”/modelo/design em dois papéis distintos: à esquerda como Duke Red, de Metrópolis (1949) e à direita como Nikura, no primeiro capítulo de Black Jack (1973), mangá no qual reaparece múltiplas vezes interpretando papéis diferentes. Interessante notar como Tezuka desenha seu “ator” como se tivesse de fato envelhecido ao longo das décadas.
Outro exemplo do star system: Hyakkimaru como Ben e Dororo como seu irmãozinho em Black Jack, no capítulo “Miyuki and Ben”. Note que no quadro mais à direita Tezuka desenhou a si mesmo como um dos passageiros, o narigudo de óculos e boina lendo um livro.
Detalhe de uma página do capítulo “Miyuki and Ben”, de Black Jack, na qual o cenário é desenhado como se derretesse, visualmente chorando junto do personagem Ben. Parece até poesia concreta.

 

Detalhe de uma página de Buda (1967), na os balões de fala grudam numa personagem que passou pomada pelo corpo.

A performatividade do gênero é outra questão recorrente em sua obra, sendo o exemplo mais notável A princesa e o cavaleiro (1953-1956), no qual a princesa Sapphire se disfarça de cavaleiro para lutar contra o mal 10. Outros exemplos estão em seu Metrópolis 11, no qual há um andróide sem gênero determinado, ou mesmo em Buda, no qual o jovem Devadatta é obrigado a se disfarçar como garota em determinado momento, sendo comentado que seu rosto seria um tanto feminino.

Ilustração de Sapphire, a protagonista de A princesa e o cavaleiro.

O apreço de Tezuka por chamar atenção ao corpo humano, através das partes desmembradas e dos membros artificiais, pode ser associada a sua formação em medicina pela Universidade de Osaka. Além disso, o mangaka foi testemunha dos horrores da Segunda Guerra, chegando a ser obrigado a trabalhar em uma fábrica de armas em 1944. De castigo, na torre de vigia da fábrica, Tezuka viu aviões norte-americanos chegando e os bombardeando. Sobre o incidente, o desenhista relata:

“Desci a torre de vigia gritando feito um louco. Ao meu redor o chão era um mar de fogo […] as casas em volta pegavam fogo, crepitando. Então, caiu uma chuva misturada com cinzas. Caminhei até o rio, vendo as crateras abertas pelas bombas onde amontoavam objetos que se assemelhavam a pedaços de seres-humanos e que eram, de fato, pedaços de seres-humanos!”. (p. 8 do Prefácio da edição brasileira de Ayako, 2018)

Mickey Mouse fires on the Japanese protagonist in Tezuka Osamu's wartime manga Shōri no hi made (Till the Day of Victory). Courtesy of Tezuka Productions.
Talvez por isso ele tenha desenhado Mickey Mouse atirando de um avião no mangá de guerra Shouri no hi made (“Till the day of victory”, em inglês; “Até o dia da vitória”, em tradução livre).

Testemunhar a destruição da guerra pode ter influenciado a imaginação de seres artificiais indestrutíveis, como também questionamentos sobre o que define a humanidade e sua moral. Mas quero menos achar uma explicação autobiográfica e mais apontar às relações entre o contexto histórico e as obras em questão. Trata-se de um Japão fragmentado – picotado como os inimigos de Hyakkimaru -, ocupado por forças externas e marcado pelos horrores da bomba atômica. O próprio nome original de Astroboy, “Atom”, remete às bombas atômicas norte-americanas que arrasaram Hiroshima e Nagazaki, não apenas matando centenas de milhares de pessoas como alterando toda a organização política e cultural do país. Seria Atom, o robô super poderoso mas diplomático, que luta pela paz, uma tentativa de criar algo positivo a partir do trauma de uma nação?

Considerando sua formação médica, não surpreende que, entre 1973 e 1983, Tezuka publicou Black Jack 12, um de seus mangás mais renomados no Japão, apesar de pouco conhecido por aqui. Trata-se da história de Hazama Kuro, mais conhecido por sua alcunha “Black Jack”, inspirada no jogo de baralho de mesmo nome, também conhecido como “21”. Ele é um cirurgião clandestino com um passado misterioso, que vive entre conflitos morais e éticos, entre o “bem” e o “mal”, o que é tornado visualmente literal por seu rosto dividido por uma cicatriz e seus cabelos metade pretos e metade branco (as mesmas cores de um mangá impresso). Black Jack é também um mangá que nos torna autoconscientes sobre o corpo humano, com suas imagens gráficas de cirurgias e interiores do corpo, as quais, apesar de por vezes influenciadas por ficção científica, são extremamente detalhadas e acuradas, graças à formação médica de Tezuka.

Vale notar também a presença da amiga de Black Jack, Pinoko, outra personagem cujo corpo é parcialmente sintético. Em um dos primeiros capítulos do mangá, Black Jack recebe o pedido de retirar um tumor de uma garota de 18 anos, operação que nenhum outro cirurgião tinha sido capaz de realizar. Esse tumor é identificado no mangá como “teratoid cystoma“: a garota teria tido uma irmã gêmea cujo embrião não se desenvolveu completamente, acabando por se alojar como tumor em seu corpo. Ao perceber que o tumor pode se comunicar telepaticamente (traço que compartilha com Hyakkimaru), Black Jack resolve transpor sua mente, sistema nervoso e seus poucos órgãos mal desenvolvidos para um corpo feito de fibra sintética, batizando-a de “Pinoko”. Devido ao tamanho reduzido de seus órgãos, Pinoko assume a forma de uma criança, apesar de ter uma mente de 18 anos, o que gera estranhamentos constantes quanto a maneira com a qual ela pensa e age. Isso também faz com que a aparência de seu corpo artificial seja comparada à de uma boneca.  Não surpreende, portanto, que seu nome tenha sido inspirado na obra original de Carlo Collodi, Pinocchio, o boneco que queria ser menino de verdade.

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Black Jack, capítulo “Teratoid Cystoma”. O tumor que veria a se tornar Pinoko seria um embrião que nasceu apenas em partes, implantado dentro de sua irmã gêmea, a garota de 18 anos que carrega o tumor.
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Black Jack dando um corpo para Pinoko.
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O corpo artificial de Pinoko, que se assemelha a uma boneca.

Pinóquio (como também a criatura de Doutor Frankenstein, de Mary Shelley) é uma personagem que ecoa ao longo do trabalho de Tezuka, seja no robô Atom feito à imagem e semelhança de um garoto morto; no corpo de madeira e porcelana de Hyakkimaru; ou na própria adaptação direta de Pinóquio que Tezuka fez em 1952  13. Se analisarmos os “pais” ou tutores de Atom (Dr. Tenma), Hyakkimaru (Dr. Honma) e Pinoko (Black Jack), encontramos analogias para o artista, o criador de personagens, que é cientista, curandeiro, alquimista, marceneiro e/ou cirurgião. Como os “pais” artificiais de seus mangás, Tezuka utilizou seus conhecimentos anatômicos para construir bonecos cartunescos. Esses bonecos, como Pinóquio contam mentiras. Não no sentido de que as personagens mencionadas são mentirosas, mas de que as narrativas em si têm consciência de serem mentiras, ficções, as quais não buscam nos convencer de serem realidade, mesmo que por breves instantes, mas sim ressaltar sua condição artificial. Também como eles, Tezuka articula em suas páginas diferentes quadros, fragmentos que formam um organismo complexo.

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O Pinocchio (1952) de Osamu Tezuka.

Além do desejo de sintetizar, outra preocupação modernista compartilhada pela obra de Osamu Tezuka é a fascinação pela cinética. Em geral as histórias em quadrinhos ao longo do século XX desenvolveram maneiras eficientes de se representar e pensar o movimento, seja através de linhas e rabiscos que indicam a forma e a direção do movimento ou a simples maneira de ilustrar um personagem com intuito de dar a sensação de que está no meio de uma ação. Contudo, é de conhecimento geral que os quadrinhos japoneses em particular se inspiraram ou até tentaram emular a sensação do movimento cinematográfico. Um exemplo clássico disso (apesar de muitas vezes incorretamente citado como o primeiro) é no mangá de Tezuka A nova ilha do tesouro (que saiu em 1947 mas, devido à perda do material original é mais conhecido em sua versão redesenhada pelo autor, de 1984) 14. Note na imagem à seguir (lembrando que a leitura é da direita para a esquerda) como, diferente das convenções norte-americanas e europeias da época 15, somos apresentados a fragmentos de um mesmo acontecimento (um carro correndo pela estrada), dando a sensação de estarmos acompanhando o personagem durante a extensão de sua ação, quase como se uma câmera cinematográfica seguisse seu percurso; além disso, a cada quadro nos afastamos um pouco mais do rosto do personagem até estarmos vendo o carro de longe, criando um efeito que lembra um plano de cinema; ou seja, cada quadro pode ser entendido como um momento diferente da ação, chamando atenção para a movimentação do carro no espaço, assim como para a “passagem” do tempo ao longo dos quadros:

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A nova ilha do tesouro, um dos primeiros trabalhos de Osamu Tezuka.

Tezuka opera uma modulação temporal próxima do cinema. Há nos seus mangás a fragmentação dos “aspectos” 16 de um único movimento, o que acaba por estender e apresentar outras maneiras de se compreender o tempo e os movimentos de uma dada ação. Para isso, os quadros do mangaka surgem nas mais variadas formas geométricas, com intuito de dinamizar as ações, fragmentando também o espaço da página.

Como os corpos de seus personagens ou o tempo de suas ações, as páginas de Osamu Tezuka apresentam cicatrizes, cortes angulares e diagonais. Em Dororo, Hyakkimaru, O garoto que possui membros falsos, os quais pode retirar e colocar novamente no lugar, tende a estraçalhar seus inimigos, os picotando e partindo ao meio. A composição de página e disposição dos quadros de Tezuka age em paralelo com isso: cada quadro seleciona um detalhe da ação ou dos corpos em cena, fragmentando visualmente as personagens. Em alguns momentos à própria lâmina das personagens fatia os quadros da história sugerindo que as sarjetas (os espaços entre um quadro e outro) são similares a cortes.

Página de Dororo em que uma das sarjetas foi cortada pelas personagens. Interessante notar a disposição dos quadros, que podem passar um por cima do outro.

Noutro momento em Dororo, vemos um espadachim dividir um inseto ao meio com sua espada. A página a seguir mostra o que acontece logo depois disso. No primeiro quadro, cada metade do inseto vai parar numa direção diferente. Os dois quadros seguintes estão posicionados um ao lado do outro, cada um contendo uma das metades, sugerindo que a sarjeta que separa os quadros é análoga à lâmina que dividiu o os insetos 17. Os próximos quadros mostram apenas a imagem da mão de Hyakkimaru, impressionado com à habilidade do espadachim. Acompanhamos sua mão lentamente encostar nas metades de cada inseto. Para estender o tempo e criar o ritmo da sequência de quadros, Tezuka precisa replicar várias vezes a mão da personagem, o que sugere novamente a já mencionada relação entre divisão e multiplicação. Dessa forma, a página chama atenção para os corpos do inseto e de Hyakkimaru, assim como para a materialidade de seus desenhos, quadros e composições.

Sendo assim, ao mesmo tempo que as páginas de Tezuka se entregam à superficialidade, há na articulação dos quadros uma vontade de representar um mundo e um movimento tridimensional, ou cinematográfico. A tensão entre as dimensões é exemplificada pela página de Dororo que acabamos de observar, na qual um personagem que supostamente ocupa uma diegése tridimensional interage com a bidimensionalidade do papel (o que, por sua vez, nos remete à condição material do quadrinho). A constante ambiguidade de sua obra, que se nega ao antagonismo simplista entre bem e mal, confundindo até as definições de ser humano, se apresenta também nesse contraste entre tri e bidimensionalidade 18.

É como se Tezuka quisesse que seus quadrinhos atingissem o dinamismo da imagem em movimento do cinema. Não à toa o mangaka se tornaria também animador, e é aqui que nos interessa remeter à origem etimológica de “animação”: do Latim anima, ou seja, “alma”. “Desenho animado” é, portanto, um desenho ao qual foi dado alma. Se Dr. Tenma anima o corpo-objeto de Atom, Tezuka anima Dr. Tenma, assim como todos os personagens e objetos inanimamados de seu mundo. Se as animações de sua produtora Mushi possuíam movimentações restritas e truncadas, a articulação entre montagem, composição de tomadas e design expressivo de personagens era o bastante para dar dinamismo à suas imagens estáticas, como se as desse vida. Técnicas estas que eram muitas vezes semelhantes às utilizadas em seus mangás, que, apesar de serem desenhos fixos no papel, estão sempre em movimento e sempre movimentando nossos olhos através dos quadros e páginas, assim como nossas mãos viram as folhas desses quadrinhos com rapidez. E, afinal, a pergunta permanece: um robô, um animal, um objeto podem ter alma como os seres humanos? Os humanos sequer têm alma? Bom, Tezuka arranjou uma maneira de dar alma à todos esses seres imaginários e estáticos. Voltando à comparação entre o autor e suas personahens que criam “bonecos”, é a partir da impressão de movimento que o artista constrói um organismo vivo.

Sendo possível pensar no termo “animação” como “trazer à vida”, Silvio Teri define “animação” como a projeção de qualidades consideradas humanas num ambiente sensorial, por meio do ato da criação, percepção e interação. Logo, Teri sugere que a performance de uma outra identidade pode ser considerada uma forma de animação 19, uma vez que estamos projetando qualidades de um ser vivo em uma identidade separada de sua identidade real, através de uma encenação. Assim, além de o próprio autor Tezuka estar dando vida a seus personagens, seus “atores” fictícios estão os animando também, assim como muitas vezes os personagens em si estão animando suas identidades falsas. Nessas camadas e camadas de encenação e performance, é sugerido que, ao serem animados, as pessoas fictícias podem revelar ter tanta alma e humanidade quanto seu criador humano. E uma vez  que é impossível conhecer a pessoa Osamu Tezuka, sua humanidade só pode ser acessada através de sua arte, ou seja, nosso contato com sua natureza acontece por meio de suas criações artificiais.

No capítulo de Black Jack “Miyuki and Ben”, o delinquente juvenil Ben se apaixona por Miyuki, uma garota que está sofrendo de um câncer incurável. Ben vai atrás de Black Jack implorando para que ele tente salvá-la, mas o cirurgião clandestino pede 5 milhões de ienes em troca. Desesperado para conseguir o dinheiro, Ben resolve tentar assaltar pessoas. Enquanto isso, acompanhamos Black Jack indo ao hospital em que se encontra Miyuki. Lá, ele convence os demais médicos a deixá-lo tentar salvar a garota, apesar de não ter recebido ainda o dinheiro. Quando parece que Miyuki de fato não sobreviverá, Ben é trazido para o hospital, tendo sido baleado por policiais ao tentar assaltar alguém. O delinquente morre e seus órgãos são transpostos para o corpo de sua amada, o que a salva da morte iminente. Na última página do capítulo, Black Jack diz que agora os corpos de Miyuki e Ben estão unidos. O último quadro mostra a garota dormindo na cama do hospital, com a alma de Ben desenhada sobreposta à cama, como se estivesse abraçando-a. A partir desta breve narrativa, podemos dizer que os órgãos de Ben “animaram” o corpo de Miyuki, lhe dando a vida. Dessa forma, o corpo físico de Ben é compreendido como sua alma. Já questionava Walt Whitman: “And if the body were not the soul, what is the soul?” (em tradução livre: “E se o corpo não fosse a alma, o que é a alma?”) 20. Além disso, “Miyuki and Ben” é um exemplo das camadas de “animações”: o autor dá vida ao design de personagem de Hyakkimaru, o qual dá vida ao personagem Ben, que, por sua vez, dá vida a Miyuki.

Última página de “Miyuki and Ben”, em Black Jack.

“Miyuki and Ben” exemplifica bem os contrastes e contradições exploradas por Tezuka em Black Jack. O cirurgião aparenta ser egoísta e desumano ao cobrar 5 milhões de ienes a um jovem arruaceiro que não poderia ter o dinheiro, mas ao mesmo tempo se comove com o sofrimento do garoto, indo tentar salvar Miyuki sem avisá-lo. Contudo, o fato de Black Jack não ser capaz de assumir sua compaixão leva Ben a procurar uma maneira rápida de ganhar o dinheiro cobrado, o que o leva à morte. Ironicamente, essa morte é a única coisa que poderia salvar Miyuki. Afinal, a vida de uma pessoa vale o mesmo que a de qualquer outra? O próprio Ben é apresentado como um garoto violento, que inicialmente tenta assediar Miyuki. Ele é, então, uma pessoa boa ou má?  E seria Black Jack um homem bom ou não? Voltando ao paralelo entre Tezuka e os “pais” criadores de seres sintéticos: Black Jack, como Tezuka, vive dividido entre a necessidade capitalista de acumular dinheiro e o altruísmo de ajudar o próximo, restaurando a vida às pessoas.

Nessa constante ambiguidade da obra de Tezuka, é notável também a brutalidade implícita no estilo aparentemente infantil e cômico de seus desenhos. Já tratamos de como as sarjetas de suas páginas são relacionadas a cortes, mas essa brutalidade se esconde também nas ações de seus personagens. O estilo de desenho pode ser caricato e arredondado, mas, diferente das obras da Disney ou de um Maurício de Sousa, Tezuka não tinha medo de mostrar sangue, mutilações ou questionamentos perturbadores, nem mesmo de matar seus bonecos fofinhos.

Um exemplo interessante disso se encontra em Buda (1967) 21. Em determinado momento, somos apresentados a um garotinho chamado Devadatta e seus colegas que praticam bullying com ele por não ter pai e sua mãe ter casado com outro homem, que também bate nele e o humilha em casa. Com esses colegas que odeia, Devadatta vai para um piquenique, mas após serem perseguidos por um elefante, as crianças caem num buraco, onde ficam perdidas por duas semanas. No buraco, Devadatta encontra uma goteira, mas se recusa a dividir a água com seus colegas por terem sido cruéis com ele. Quando eles tentam acessar a goteira, Devadatta os mata um por um com uma rocha. Ao serem encontrados por seus pais, as crianças estão todas ensanguentadas com pedras na cabeça, menos Devadatta, que é considerado um demônio pela comunidade e jogado para ser devorado por hienas. A história de Devadatta não acaba por aí, e prossegue com acontecimentos perturbadores. O curioso é que o design de Devadatta e das demais crianças não é muito dissimilar de uma Turma da Mônica, podendo passar por uma narrativa extremamente infantil à primeira vista.

Página de Buda. Devadatta (no último quadro, à esquerda) e seus colegas.
Devadatta assassinando um de seus colegas.
As crianças desaparecidas encontradas pelos adultos: todas mortas e ensanguentadas, tirando Devadatta, que está ao lado de sua preciosa goteira, mas com uma expressão miserável.

Outro bom exemplo é o já mencionado Black Jack, no qual são intercaladas caricaturas arredondas e fofas com o horror corporal (por que não dizer gore?) de vísceras, doenças e mutilações. O gore fofo de Tezuka também surge em Dororo, no qual vemos páginas de monstros e humanos serem desmembrados e jorrando sangue ao lado de quadros silenciosos e contemplativos da paisagem natural, ou interações cômicas entre as personagens, as quais podem se tornar tensas e dramáticas em poucos quadros. Esse contraste tonal que Tezuka alcança, que ocorre também na ocasional discrepância entre um cenário detalhadamente rico em texturas e personagens cartunescos, é o que faz os momentos horripilantes e mórbidos terem ainda mais peso e impacto.

Página de Buda, onde é possível perceber o contraste entre os humanos e animais cartunescos, quase sem nenhum sombreado, e o cenário mais detalhado e cheios de texturas da floresta.
Detalhe de uma página de Dororo, após Hyakkimaru decapitar um youkai. Um exemplo da violência gráfica operada pelas personagens fofas de Tezuka.

Além de contrastar tons diferentes, como cenas assustadoras com cenas cômicas, ocorrem também sobreposições de emoções e tons diversos, revelando complexas camadas de sensações da vida humana. Um exemplo disso está no final do já citado capítulo Black Jack, “teratoid cystoma”, no qual Pinoko é introduzida. Ao ser apresentada à sua irmã gêmea (que, voltando ao tema da performance, não quer revelar sua identidade, preferindo usar uma máscara), Pinoko é rejeitada como uma aberração e passa a xingar e pular de maneira cartunesca em cima dou corpo recém operado de sua irmã. Uma cena cômica, mas com uma camada de sentimentos de dor e rejeição implícita, especialmente dada as circunstâncias bizarras da situação.

Entre o as imahens óbvias e a exploração ambígua de todo um espectro emocional, o mundo que Tezuka pintava de nanquim e animava em celuloide não é diferente da realidade modernq: fragmentado, em tensão entre as superfícies e a profundidade. Sobre esse mundo, o autor dava vida a bonecos confusos com sua própria identidade, que buscavam entender o que os animava e o que fazer com a vida que lhes foi dada. A constante metalinguagem e os contrastes de Tezuka demonstram uma autoconsciência sobre a irrealidade de suas representações, ao mesmo tempo que um certo gosto pela artificialidade, como se fosse da natureza humana a performance e a reprodução.

Sabendo que a arte modernista e construtivista foi uma das influências principais para o desenvolvimento da indústria e estéticas do mangá, não é de surpreender que um de seus maiores artistas tenha refletido tanto sobre a condição dos seres humanos no mundo industrial. A obra de Tezuka nos obriga a avaliar o que diferencia uma pessoa de uma engrenagem de uma máquina, ou de brinquedos e imagens a serem manipulados. Na era da reprodutibilidade técnica estamos perdendo o que antes nos definia como humanidade, nos replicando e virando parte máquina, ou parte de plástico, assim como nos bombardeando e fragmentando nossos corpos e comunidades. Como, então, mantemos nossa agência no mundo, não nos tornando suscetíveis às manobras de titereiros? Bom, havendo possíveis paralelos entre o autor Tezuka e os criadores de seres artificiais, vale notar como parte desses personagens que criam ciborgues e andróides não os manipulam, enxergando suas criações como indivíduos autônomos e livres. Quem sabe é possível sermos bonecos industriais e ainda possuirmos agência. Sendo a agência desses bonecos advinda em parte da metalinguagem – ou seja, da autoconsciência do artifício – talvez nós humanos precisemos de uma dose de existencialismo.


Esse texto originalmente foi pensado como introdução para uma análise do mangá Ayako (1972-1973), lançado no Brasil pela Veneta em 2018. Acabei me empolgando, então resolvi dividir o texto em dois (dá até pra fingir que faz sentido com o tema dos fragmentos e duplos): uma metade em que trato de maneira mais geral e ensaística sobre a metalinguagem nos quadrinhos de Osamu Tezuka e outra em que analiso Ayako em particular. Na parte 2 discutirei como Ayako utiliza de algumas características que apresento na parte 1 para traçar uma narrativa sobre o contexto político do Japão pós-guerra, a ocupação e influência dos EUA na política interna no país, assim como os conflitos entre classes econômicas e gerações.

Vale dizer que esse texto não se propõe a um rigor acadêmico, ainda mais por que não li tantas onras de Tezuka como gostaria. São mais reflexões e observações que ainda podem ser polidas e desenvolvidas. Um ensaio.

NOTAS:
  1. Recomendo o vídeo Koguma no Korosuke de Yoshimoto Sanpei e a influência da arte modernista no mangá”, do Rafael Machado Costa, do Ilha Kaijuu, para entender melhor a relação entre a arte modernista nos mangás da primeira metade do século XX.^
  2. Autor de mangá.^
  3. Outro que já recebeu muitas vezes esse apelido esdrúxulo é Hayao Miyazaki.^
  4. Obra de Tezuka lançada em 2018 pela editora Veneta.^
  5. Quadrinhos japoneses adultos, que tratavam de temas políticos e controversos que não apareciam nos mangás das grandes editoras da época.^
  6. Como o próprio prefácio nota, Katsuhiro Ohtomo, o autor de Akira, estreou na COM. Inclusive, Ohtomo dedicou Akira, entre outras pessoas, a Osamu Tezuka.^
  7. No Brasil, os quatro volumes de Dororo foram publicados em 2010 pela editora NewPop. A obra conta com duas adaptações para anime, uma dos anos 1960 pela Mushi Productions do próprio Tezuka e uma de 2019, assim como um longa-metragem live-action de 2007.^
  8. Classe de criaturas e espíritos encontrados no folclore japonês.^
  9. Inclusive, autores diferentes podiam aproveitar o “ator” de um outro mangaka, como Shotaro Ishinomori ao usar um mesmo design de Tezuka em um de seus próprios mangás (os quais, inclusive, eram majoritariamente sobre ciborgues, andróides e outros seres artificiais, como Kamen Rider, Cyborg 009 e Jinzou Ningen Kikaider^
  10. O conceito para esse mangá foi inspirado pela trupe teatral Takarazuka Revue, toda composta por mulheres, as quais interpretavam tanto personagens femininas quanto masculinas. Eventualmente, elas adaptaram para o palco alguns mangás, como Black Jack e Phoenix, de Tezuka, assim como Rosa de Versalhes, que por sua vez foi influenciado por A princesa e o Cavaleiro.^
  11. Vale conferir a adaptação de 2001, com roteiro de Katsuhiro Ohtomo (também conhecido como o cara que dedicou ao Osamu Tezuka sua obra-prima Akira) e dirigida por Rintaro, que mistura elementos do mangá original com o filme homônimo de Fritz Lang. O mangá foi editado no Brasil pela NewPop.^
  12. O mangá conta com múltiplas adaptações e sequências para a T.V., quadrinhos e cinema (incluindo um longa dirigido por Nobuhiko Obayashi, com Joe Shishido como o personagem titular). Uma adaptação para anime de 2004, supervisionada pelo filho de Tezuka, Macoto Tezka, chegou a passar no canal Animax no Brasil, mas o mangá em si infelizmente nunca foi publicado por aqui.^
  13. Essa adaptação foi lançada no Brasil pela NewPop.^
  14. Outro quadrinho de Tezuka que foi lançado no Brasil pela NewPop.^
  15. Note também que estamos generalizando para simplificar as coisas.^
  16. Estou usando a definição de Scott McCloud em Entendendo os quadrinhos (1993), apesar de conhecer suas limitações.^
  17. Isso pode servir de exemplo para como as HQs não são necessariamente uma arte sequencial, uma vez que podemos entender que esses dois quadros representam algo que ocorreu simultaneamente. Sobre isso, recomendo este vídeo do canal Quadrinhos na Sarjeta, do pesquisador Alexandre Linck.^
  18. Sobre a questão do tridimensional entrando em choque com o bidimensional, gostaria de mencionar a título de curiosidade The Vampire (1968-1969), adaptação para TV de um dos mangás de Tezuka, que buscou sobrepor animação 2-D à filmagens live action. Houve também Galaxy Boy Troop, que intercalou fantoches e animação 2-D.^
  19. Encontrei essa ideia no vídeo “Animating virtualities in Net-juu no Susume”, do canal Pause and Select. Eu não cheguei a encontrar o texto de Silvio Teri em si, “Animation: The New Performance?”, que saiu em 2010 no volume 20 do Journal of Linguistic Anthropology, então me baseei apenas no que é citado no vídeo em questão.^
  20. Verso do poema “I sing the body electric”, do livro Leaves of Grass, de 1855. O título (“Eu canto o corpo elétrico”) me faz lembrar de Atom e dos demais andróides e ciborgues da ficção^
  21. No Brasil, o mangá foi lançado em 14 volumes pela editora Conrad.^

Ensaio sobre a aventura literária – por Thais Carvalho Azevedo

Começo este ensaio refazendo algumas das principais perguntas sobre a natureza da literatura que surgiram ao longo da história (algumas delas com respostas já tomadas como verdade absoluta). A ficção é um artifício intrínseco de todo ser humano, independente de sua cultura e seu tempo? E exclusivamente do humano? Possuiria ela uma função na sociedade ou no espírito do homem? Quanto dela depende de seu produtor e o quanto depende de seu receptor? O que define sua qualidade ou falta dela? A ficção pode ser considerada uma representação da realidade ou algo além disso?

Arrisco-me a dizer que pode ser interpretada como uma representação da realidade quando pensamos em seu funcionamento, não em seu conteúdo. A vida, assim como a literatura, sempre instigou no ser humano as mais diversas perguntas. Estamos aqui por algum motivo ou é tudo um grande acaso? O tempo existe realmente ou é mera alucinação? Da onde vem nossa vontade de entender nossa natureza e o mundo? O amor existe de fato ou é apenas uma invenção humana para tornar a realidade mais suportável?

Tanto na literatura quanto na vida é inquestionável o surgimento de perguntas que nos instigam sem nunca poderem ser respondidas com certeza, levando-nos muitas vezes ao desespero existencial e acadêmico. Proponho uma única possível certeza (perdoem-me a contradição) que podemos ter sobre ambas: acontecem através da exploração. A energia colocada na busca pelas respostas não pode encontrar outra saída sem ser explorar e experimentar para todos os lados e para dentro. Se andamos às cegas e, ainda assim, somos obrigados a andar, temos que usar o corpo e os outros sentidos para guiar o caminho, por mais que a existência desse caminho seja incerta.

Para muitos estudiosos a literatura teria uma função específica, seja a de organizar a nossa realidade, de nos livrar dela ou de modificá-la. Por minha vez, não acho que exista uma função. A exploração não é o motivo, a função ou a consequência da vida e da literatura, é apenas seu modo de ser. Tomando então o caráter exploratório como ponto de partida, tentarei analisar o processo de criação literária.

Pode-se dizer que a exploração começa antes mesmo da criação; uma vez que não sabemos de onde viemos e por quê, temos que inventar nosso ponto de partida. É curiosíssimo como todas as estruturas existentes -das mais simples às mais complexas- se constroem em cima de uma fundação feita de nada ou de mistério, o que nos faz questionar o sentido de tudo o que foi construído a partir daí. É como se ao tomar a consciência disso percebêssemos repentinamente que estamos num mar aberto que não nos dá pé. Essa incerteza do sentido das coisas pela falta de fundação pode nos dar dois caminhos opostos; o do medo ou da coragem. Temos medo de nos mexer para criar algo e acabar afogando no mar dos mistérios, por isso muitas vezes acabamos não criando nada, optamos por boiar, inertes. Por outro lado, se não existem o sentido e a segurança, pode-se perder o medo de errar na criação, uma vez que ela não significa nada. Talvez então a literatura tenha duas características intrínsecas: a exploração e a coragem. Eis o primeiro paradoxo: o processo criativo se dá justamente na medida em que se toma consciência do vazio que ele esconde. O escritor é tomado pela adrenalina de não ter nada a perder e de poder errar, pela sensação de liberdade plena. Daí se constroem a vida e a ficção.

Deste ponto de vista pode ser proposta uma discussão sobre a qualidade da literatura. Quanto mais desprovida de função e de motivo, maior seu potencial. É claro que existem criações literárias complexas e muito admiráveis que possuem um objetivo da parte do autor. Estas têm sua qualidade averiguada por outros pontos de vista, como o impacto social, a expressividade lírica, o trabalho com a palavra e com a língua, etc. Sugiro, entretanto, que haja sempre um componente inconsciente da coragem advinda do vazio existencial.

Colocados os pontos iniciais sobre a falta de pontos iniciais, pensemos agora sobre como se dá o processo criativo-exploratório na literatura. Quando falamos em criatividade logo penso numa das reflexões mais famosas da história: “nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.” Talvez possamos reformulá-la um pouco, com minhas sinceras desculpas a Heráclito: Através da destruição e da criação, tudo se transforma. (esclarecendo aqui que nada “se perde” simplesmente. As coisas são destruídas por outras. Seja por armas, pelo tempo, pelos vermes). Já há algum tempo formei uma opinião sobre a destruição e a violência: não são de todo negativas. São, na verdade, necessárias, e até mais, inevitáveis. A criatividade requer indiscutivelmente a destruição. São as duas principais potências da Natureza e os dois lados da moeda da transformação. Seus análogos na psicanálise provam meu ponto: funcionamos na contradição (ou contradução) eterna entre Eros e Thanatos.

Tomo aqui como matéria-prima da literatura a realidade bruta em que vivemos, e nossa imaginação como o artífice que escolhe quais partes dela irá destruir, usando a coragem e a violência de combustíveis. Escrever ficção pode então ser interpretado como o processo de exploração na medida em que é preciso destruir os galhos e entulhos para que se possa construir a própria trilha.

Mas não podemos tomar a realidade que exploramos como o caos sobre o qual se faz a literatura, uma vez que ela mesma é construída de representações, divisões e organizações sociais, como uma imensa biblioteca dinâmica. Não se cria destruindo o caos, e sim destruindo os compartimentos de realidade. (Esses compartimentos talvez possam ser comparados com os “frames” dos quais Luiz Costa Lima fala em “Representação social e mímesis). A ficção desafia o real na medida em que perdemos o medo de ir com toda a força contra os muros, sem hesitar. É mágica pois funciona como uma partícula lançada na velocidade da luz que atravessa compartições e capas de livros, levando os personagens de uma extremidade da biblioteca a outra, de um universo a outro.

A questão é como fazemos para romper as compartições da realidade na busca de outros universos. Receio que esta destruição só seja possível quando quebramos a primeira barragem: a individualidade. O abismo da linguagem, já pensado por vários estudiosos, é a expressão perfeita, pois a literatura nos lança -mais que qualquer outro tipo de escrita- para fora de nosso lugar, de nosso corpo, de nós mesmos. Tomemos aqui a metáfora como uma espécie de unidade mínima de ficção: algo que se transforma -pela destruição e criação de si- naquilo que, a princípio, não deveria ser. Isso possui a semente da violência presente na ficção complexa. Tornemo-nos então, para escrever e criar, quem, a princípio, não deveríamos ser. Volta o aspecto da coragem pois temos que destruir parte do que achamos que somos, de nossa individualidade feita de retalhos sociais, genéticos e psicológicos. Perdemos o medo de descobrir que talvez não tenhamos uma essência, algo único que nos defina e que nos prende a nós mesmos. Por essa ótica, a literatura é também um exercício contra o ego.

Esses desprendimentos podem ocorrer de diversas formas. Na metamorfose dos personagens, como em Kafka, na instabilidade dos pontos de vista de Virginia Woolf, na perda (ou destruição) das estruturas de Clarice Lispector, na destruição da barragem entre realidade e ficção de Tolstoi, no desespero existencial de Milan Kundera, na queda da sociedade das aparências de José Saramago, no showing de Hemingway, no qual o narrador abdica quase que totalmente de seu lugar de fala.

Admitindo minha parcialidade, confesso que prefiro as escritas lentas, uma vez que quanto mais o tempo se estica dentro do livro, mais o narrador se aprofunda na experiência de ser o outro e, consequentemente, mais se desprende de si. Igualmente acontece com o espaço, quanto menor é o ambiente do qual os personagens dispõem, mais profundamente são obrigados a explorá-lo.

Podemos perceber grandes reflexões em algumas novelas de Dostoievski que falam sobre a morte sobre esse impulso exploratório do humano (ou do além-humano) de destruição e criação na busca pelo Outro e sobre os diferentes modos de lidar com ele, direcioná-lo e manipulá-lo, amá-lo ou odiá-lo.

Talvez soe estranho a colocação de Memórias do subsolo como um livro que tem a morte como tema. Comecemos por este, então. Falo aqui da morte figurada do personagem que atingiu os limites de sua frustração existencial e que se considera “natimorto”. Da onde vem essa sensação de morte tão latente? A sugestão é que venha da pulsão acumulada do instinto exploratório que surge quando reconhecemos nosso vazio existencial. O personagem descobriu esse vazio, escolhe o caminho do medo e, por consequência da inércia. Mas busca desesperadamente a possibilidade de transgressão e da quebra da lógica e das regras do comportamento humano. Ele percebe que não há nada por baixo das estruturas e se vê na crise de tentar transgredí-las:

“Para começar a agir, é preciso, de antemão, estar de todo tranquilo, não conservando quaisquer dúvidas. E como é que eu, por exemplo, me tranquilizarei? Onde estão as minhas causas primeiras, em que me apóie? Onde estão os fundamentos? Onde irei buscá-los?”

Há uma rejeição das concepções positivistas sobre o ser humano e sobre boa moral. Para a personagem, são fórmulas que nos transformam em seres mecanizados como meras teclas de piano e que nos encadeiam numa estrutura previsível e eternamente infértil.

Falando sobre o interior de um homem de boa moral e de boas virtudes e vantagens, ele diz:

“Desejará conservar justamente os seus sonhos fantásticos, a sua mais vulgar estupidez, só para confirmar a si mesmo (como se isso fosse absolutamente indispensável) que os homens são sempre homens e não teclas de piano, que as próprias leis da natureza tocam e ameaçam tocar de tal modo que atinjam um ponto em que não se possa desejar nada fora do calendário”

Trago estas passagens para uma reflexão sobre o ser como essa tecla de piano que não pode fazer nada a não ser obedecer o que lhe é previsto pela física e pela natureza. Temos um só tom e não podemos criar nada além disso.

O que sugiro aqui, entretanto, é que a criação seja necessariamente um produto feito na transgressão de si. Pois se a música é uma criação que se dá na manipulação do tempo e do silêncio, ela precisa de várias teclas, que transgridem o tempo na medida em que conversam entre si. É isso o que falta ao protagonista para que possa liberar sua pulsão exploratória. Dostoievski nos fala sobre as causas primeiras da melancolia e da literatura. A necessidade de violência, de sofrimento e de grotesquidade do homem vem da urgência pela imprevisibilidade e pela fuga da sanidade que nos é imposta. Talvez Memórias do subsolo seja um anti-manual de como lidar com esse vazio existencial e essa percepção da falsidade das estruturas. O protagonista direciona de modo deficiente essa necessidade acumulada de destruição e fica, consequentemente, preso ao próprio ego e à autopiedade devastadora. A destruição vai para dentro da alma em vez de ir em direção aos compartimentos de realidade que desembocariam na criação.

Entretanto, percebemos que é uma pulsão imbatível: ele se perde em seus devaneios compulsivos, que podem ser considerados uma forma obstruída de ficção. Daí talvez a única verdade sobre a natureza: os seres sempre terão a necessidade de destruição e criação e ela se manifestará de uma forma ou de outra, queiramos ou não. Daí também surgem essas obsessões com pequenos detalhes que se tornam gigantes, como a vontade de esbarrar nas calçadas da cidade com um indivíduo socialmente superior: é a tentativa inconsciente de se encontrar com o diferente, misturar-se fisicamente com ele.

Quando pensamos no Sonho de um homem ridículo, o caminho é outro. O protagonista tem a mesma percepção do vazio existencial daquele de Memórias do subsolo, tudo sempre começa aí. Os caminhos tomados, entretanto, são aquilo que possibilita as diferentes formas de criação. À beira do suicídio -talvez, uma destas formas de “tornar-se outro- ele tem o imprevisto de um sono profundo e acaba tomando outro caminho: o do sonho. Este sonho pode ser interpretado de inúmeras formas. Arrisco-me no palpite de que seja uma viagem astral no espaço-tempo de volta ao paraíso. No passado sublime quando todos os seres falavam a mesma língua e se amavam igualmente, sem luxúria ou ódio, sem regras ou transgressões e, principalmente, sem barreiras, estruturas e compartimentos de realidade. O real era puro e cru. Mas tudo mudou. O homem que sonhava trouxe-lhes o fruto proibido. A língua acabou por fragmentar-se, as pessoas conheceram o ódio, o ego e a luxúria e a realidade dividiu-se inteira: surgiram as barreiras do mundo como vemos hoje, todo quebrado. Pode-se pensar que a ficção, além de destruição de compartimentos da realidade e de nós mesmos, tenha a ver com uma nostalgia desse mundo sem barreiras, com uma língua que não era violenta e não mutilava a nossa natureza inteira. Buscamos pela escrita tanto a aventura de explorar as possibilidades deste mundo quanto a volta ao mundo primitivo, sublime e silencioso, pré-humano e além-do-humano.

Aí está outra contradição (lembrando de Roland Barthes): a fruição do texto literário nasce da fricção entre a vontade de explorar para frente e a vontade de voltar para o passado. Contradição esta que não é negativa, mas produtiva e muitas vezes responsável pelo ritmo do texto, além de sua fruição.

Pode-se dizer até que, em certo aspecto, a ficção se comporta como ciclo fechado em relação à realidade. Veja bem, temos a realidade crua do sonho do homem ridículo, perfeita e fluida, natural e sem barreiras. Depois chega a realidade humana e a separa toda, formando as individualidades, burocracias e estruturas. Após isto, através da destruição das estruturas para a criação de coisas novas (sendo estas qualquer tipo de arte ou transgressão no geral) que acontece na experienciação do outro e na troca de pontos de vista, vamos em direção ao que tinha embaixo, à pureza vazia do mundo que não possui significados e significantes, o causador tanto de nosso vazio existencial quanto de nossa nostalgia de não sentir nada.

Outra contradição: temos simultaneamente medo e desejo por este vazio inalcançável que nos ameaça constantemente e foge quando tentamos aceitá-lo de uma vez por todas. Daí talvez a obsessão de Dostoievski e da psicanálise com o tema da morte. A única escapatória para o desespero dessa inconstância humana entre o vazio e o significado é a arte, irrompendo como a lava de um vulcão em erupção, que somos nós.

***
Thais Carvalho Azevedo nasceu em Botucatu, interior de São Paulo. Morou em Macaé, Ribeirão Preto e Niterói. Faz Letras na UFF, pesquisa Clarice Lispector. Gosta de pesquisar, mas ama ensinar. Quer ser professora de crianças e adolescentes. É escritora desconhecida.