Vindos do sótão… #1: Cripta do Terror – por Pedro Ávila

Recentemente meu avô, o matemático e educador Reginaldo Naves de Souza Lima, faleceu aos 90 anos de idade. Durante décadas ele colecionou uma imensidão de livros e histórias em quadrinhos, que organizou em plásticos e caixas, nas estantes de metal de sua biblioteca, que ficava no sótão de sua casa em Belo Horizonte. Em sua memória, resolvi criar a coluna “Vindos do sótão…”, e ir registrando aqui minhas leituras de alguns desses quadrinhos de sua coleção. Então vem aí muito Flash Gordon, Dick Tracy, Príncipe Valente, quadrinhos europeus estranhos, zines brasileiras esquecidas e muito mais! Nessa primeira edição:

 

Cripta do Terror, os quadrinhos da E.C. que saíram pela Record nos anos 1990

 

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Quem sabe o mundo fosse um lugar melhor se o Zelador da Cripta, a Bruxa Velha e o Guardião da Câmara não tivessem sido vítimas do puritanismo e da competição entre editoras medíocres de super-herói.

Em meio a coleção do meu avô, esbarrei com 6 (dos 7) volumes de Cripta do Terror, uma publicação que a Record trouxe pro Brasil em 1991. Cripta do Terror compila histórias curtas variadas que saíram em revistas como Tales from the Crypt, Haunt of Fear, Vault of Horror, CrimeSuspenseStories e ShockSuspenStories, da extinta editora Entertainment Comics, vulgo E.C., que além de terror e suspense, publicou a seminal Mad de Harvey Kurtzman. Capitaneada por Bill Gaines, que também roteirizou boa parte das histórias da E.C, a editora entrou em falência depois que se estabeleceu o Comics Code Authority, no final dos anos 1950, que proibia quadrinhos com temáticas adultas, principalmente com violência e terror. Na verdade, o Código autoimposto pelo próprio mercado editorial americano, depois de muita lenga-lenga e terrorismo da mídia sobre os quadrinhos estarem destruindo a mente dos jovens, foi em parte para atrapalhar as vendas da E.C., que era a principal editora do momento (além de proibir que as capas de gibis contivessem palavras como “terror”, “horror”, “fear”, “crime”, o que podia fazer sentido, proibiram até “weird”, ou seja “esquisito”, simplesmente porque dois dos títulos da E.C. eram Weird Science e Weird Fantasy). 1

Algumas histórias são genuinamente boas e as revistas contavam com alguns dos melhores desenhistas americanos da época: Al Williamson, Jack Davis, Frank Frazetta, Wally Wood, Graham Ingels, e por aí vai (só monstro mesmo, rs). São todas histórias curtas, por volta de 7 páginas, criativamente repulsivas e hilárias, quase beirando a metalinguagem neobarroca. Pra dar um exemplo, em “Estrela do desejo” (“Star Light, Star Bright”), desenhada por Johnny Craig, sonho e realidade se misturam e um homem não sabe se está deitado em sua cama olhando para a janela no teto do quarto ou amarrado num caixão que possui uma abertura. Com a narrativa gráfica, os painéis do quadrinho se tornam a moldura da janela e a abertura do caixão, sendo quase todo desenhado do ponto de vista do personagem. Isso pra não falar dos vampiros bebendo sangue através de torneiras enfiadas em pescoços, noivas bonecas vudu zumbis, crítica social, rinha de galo, reviravoltas poéticas e muitos mas muitos irmãos siameses. É como encontrar o cinema B americano da primeira metade do século XX (de Hitchcock a Jacques Tourneur, de Fritz Lang a James Whale) condensado e radicalizado em histórias de 7 páginas.

Página de “Estrela do desejo”, publicada originalmente na Vault of Horror 34, em 1954.

 

Uma das histórias mais notáveis que foi publicada é incomparável “Raça Superior” (“Master Race”), desenhada por Bernie Krigstein, que saiu originalmente em 1955, na Impact, uma das tentativas malfadadas de Bill Gaines de burlar o recente código de ética. A história de 8 páginas foge bastante da narração mais genérica da maioria das histórias, com maior experimentalismo no layout dos painéis. Curioso que para suprir a falta de cinismo e violência gráfica Kriegstein foi na direção de uma violência literalmente gráfica, utilizando técnicas narrativas verdadeiramente vanguardistas, o tipo de coisa que surgiria com peso na Europa só na década seguinte, nas HQs comerciais dos EUA então, lá pros anos 1980 com Frank Miller e Alan Moore. O mais incrível é que as técnicas ajudam a compor o ritmo de perseguição e paranoia do conto, uma das primeiras HQs a tratar do genocídio dos nazistas na Segunda Guerra. Os espelhamentos dos personagens, as fragmentações e modulações temporais, tudo conversa muito bem com as lembranças traumáticas revividas, agora sobrepostas sobre a América do Norte então contemporânea, com possíveis associações entre as pessoas se locomovendo sequenciadas, em filas, nas ruas alemãs, nos campos de concentração e no metrô. Na verdade, talvez o mais incrível seja que apesar de tudo o conto segue uma fórmula bem E.C. comics, contando com um dos famosos finais surpreendentes da editora. Há até quem diga que “Raça Superior” é o Cidadão Kane das histórias em quadrinhos. Bem, quem diz isso talvez esteja ignorando o trabalho de Will Eisner em The Spirit, que me parece mais próximo esteticamente do trabalho de Orson Welles e Gregg Toland, mas é claro que é uma história em quadrinho tão revolucionária quanto. Recentemente foi republicada em O Perfeito Estranho 2, uma antologia das histórias de Bernie Kriegstein, pela editora Veneta (que precisa reeditar isso logo que é um material excelente). Tem algumas outras de Kriegstein ao longo das sete Cripta do Terror, apesar de que a maioria esteja um pouco longe do experimentalismo de “Raça Superior”, não que não sejam algumas das melhores histórias da E.C.. Inclusive, é um dos casos em que o preto e branco da edição brasileira funciona muito bem, permitindo que o traço delicado e preciso de Kriegstein e seu uso do preto e branco sejam admirados. Fato é que essas oito páginas estão lado a lado de outras grandes obras de arte sobre o tema, como Maus de Art Spielgman, Noite e neblina de Alain Resnais ou Shoah de Claude Lanzmann. Um quadrinho extremamente importante de ser relembrado nos dias de hoje, que não perdeu nada de seu impacto.

 

Detalhe da página final de “Raça Superior”, que saiu originalmente na Impact número 1 , de 1955.

Mas vale a pena ir atrás dessas edições velhas? Não sei. Apesar de originalmente em cores a revista é toda preto e branco, o que combina com algumas histórias e ajuda a apreciar o traço de alguns artistas (Williamson, por exemplo) mas acaba deixando algumas com a sensação de algo faltando, sem contar que as primeiras edições tem uma impressão horrível, apagando parte dos desenhos (o que foi sendo corrigido ao longo da publicação). Dito isso, o papel jornal fedido e empoeirado realmente passa a sensação de estarmos adentrando uma cripta maldita com o Zelador e a Bruxa.

Vale notar que até o número 5 essa revista da Record utilizou artes de artistas brasileiros para as capas. São diretamente inspiradas nas capas originais, o que talvez tenha paradoxalmente contribuído pra controvérsia que foi com os leitores brasileiros, que viviam enchendo o saco da Bruxa Velha e do Zelador da Cripta (ou seja, do editor Otacílio Costa D’Assunção Barros, conhecido como Ota) para deixarem pra lá os “pastiches” e utilizar as artes originais. Pessoalmente, concordo que as capas originais tendem a ser melhores, algumas escolhas de cores e a textura das pinturas, apesar de terem seu próprio charme, tiram um pouco do brilho das originais. Dito isso, a ideia de dar oportunidade para artistas brasileiros, como Carlos Chagas, não deixa de ser louvável.

Capa original de Johnny Craig, para Vault of Horror 23, de 1952.

 

Arte de Carlos Chaga sobre desenho de Johnny Craig, para Cripta do Terror 3, 1991.

E apesar das capas e do preto e branco houve um esforço bacana de manter o tom original, com os apresentadores (horror hosts) comparando uma história com a outra e se agredindo verbalmente. O que é curioso porque significa que houve uma certa edição dos tradutores e editores, que mudaram parte dos textos originais para fazer sentido certas comparações entre histórias que não foram publicadas juntas originalmente, mas em revistas diferentes, até em anos diferentes. Alguns podem sentir um verdadeiro pavor ao saberem que o texto original foi em parte “mutilado” pela edição brasileira, mas eu acho um toque simpático (que acabou não durando tantas edições, de qualquer forma).

No mais, fico na torcida para ainda vermos (pela própria Veneta que trouxe Kriegstein? pela Pipoca & Nanquim, que já nos trouxe os belos horrores de Jayme Cortez? pela Figura que trouxe Oesterheld e Breccia?) uma republicação a cores e com papel de qualidade dos quadrinhos da E.C., nem que seja uma coletâneazinha.

NOTAS:
  1. Esse vídeo do Pipoca & Nanquim é um bom resumo da ópera, que conta detalhes sobre o contexto histórico e os diversos personagens que participaram dessa história de terror dos quadrinhos norte-americanos.^
  2. O título vem da última frase de “Master Race”: “…Era um perfeito estranho”.^

4 comentários em “Vindos do sótão… #1: Cripta do Terror – por Pedro Ávila”

  1. Incrível não só o texto crítico que demonstra a extensa cultura pop- cnematrográfica e de quadrinhos de adultos de Pedro Avila, mas também o interesse vanguardista do velho educador e matemático que deve a sensibilidade de salvaguardar este precioso e ainda pouco conhecido no Brasil, acervo .
    Que venham as próximas críticas.
    Parabéns a casulos.

  2. Incrível não só o texto crítico que demonstra a extensa cultura pop- cnematrográfica e de quadrinhos de adultos de Pedro Avila, mas também o interesse vanguardista do velho educador e matemático que teve a sensibilidade de salvaguardar este precioso e ainda pouco conhecido no Brasil, acervo .
    Que venham as próximas críticas.
    Parabéns a casulos.

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